A plebe é rude e ignara!

22/11/2007

Numa das poucas vezes em quem, num desabafo, num lamento, comentei minha situação, foi exatamente com o Adamastor. Sempre com medo de dar a entender que estava com pena de mim mesmo: contei a conversa que tive com o delegado de Marituba, e de como ele me relatou o despreparo da polícia, a desmotivação do pessoal, por si só, viciado na propina, na arbitrariedade, na tortura e, principalmente, da expectativa de o crime organizado assumir o controle das favelas como acontece no Rio e em São Paulo. Disse que por enquanto aqui é diferente de lá, porque ainda não temos os “territórios liberados”, onde a polícia não pode entrar. Mas aqui como lá, a prioridade é resolver casos de gente importante ou com a repercussão na imprensa. No mais, a delegacia funciona como um cartório para registrar queixas e ocorrências. As poucas que alguns desavisados ainda se dão ao trabalho de fazer. A velha máquina de escrever foi substituída pelo computador, mas sem nenhuma conexão com a Central ou outras delegacias. Prendem-se e soltam-se “meliantes”, sem poder saber se têm ficha e se são procurados. E haja o governo comprar “viaturas” caríssimas, sofisticadas, ligadas via satélite e, as poucas disponíveis nas delegacias da periferia, rodam com pneus na última lona, que não podem passar por cima de bagana de cigarro.

[...] 

-É porque a plebe é rude e ignara.

 Essa novidade de plebe rude, o Marapanim andou tirando do samba do Miguel Gustavo e Ciro Monteiro, “Café Soçaite”.

-Adamastor, essa tua tese até que está bonitinha. Merece ser mais bem estudada e formulada. De repente, podes estar criando uma nova teoria. Um neomarxismo cabloco.

-Bem, acho que está na hora de ir embora, não estás levando a sério. sabes que não brinco com essas coisas.

-Não é nada disso, senta aí, Adamastor, esse não é o busílis. A questão é: o que é que nós vamos fazer para sobreviver enquanto a tua revolução não chega? Quem  restará para fazê-la, será o lumpemproletariado?

[...]

O Maracajá parece que leu os meus pensamentos.

-Esse igarapé nunca mais será o mesmo sem aquelas discussões entre vocês. Seu Adamastor, o professor Jônathas e o Marapanim. Eu ficava só espiando, depois ia matutar comigo mesmo.

-E tu entendias alguma coisa?

-Claro, eu sou analfabeto, mas não sou burro, presto atenção nas coisas. Uma vez eu quase que me meto na conversa de vocês. Foi quando o professor disse que a gente tava atravessando uma crise.

-E é verdade, onde é que tu não concordas?

-Presta atenção: atrevessar é passar de um lado para o outro, não é?

-É.

-Então nós tamos é de comprido, pois eu já nasci nesta merda de crise, faz tempo que eu nado de braçada e inda nem vi o outro lado. Ora, atravessar…

[...]

Trechos destacados do do livro A Agenda do Velho Comunista, de André Costa Nunes.

Lembrei destes “momentos” das conversas entre o Pedro, Adamastor e Marapanim, ao ver, ainda agora, na TV Câmara, que os Deputados Federais aprovaram requerimento, proposto pela Dep. Luíza Erundia(PSB/SP), para constituição de uma Comissão Externa da Câmara Federal para apurar os fatos relacionados com a adolescente que ficou presa por cerca de um mês numa cela junto com 20 homens, em Abaetetuba.

O fato está nos jornais, blogs e revistas. Todo mundo dando a solução.

Ouvi deputados e senadores indignados(?). Inclusive, políticos oportunistas dizendo que “é a polícia do PT”, alusão ao partido da atual Governadora, Ana Júlia. Casuísmo. Assim como foi quando ocorreram os assassinatos de “Sem Terras” na famosa cursa do “S”, em Canaã dos Carajás, ao dizerem que “foi a polícia do Almir” (Almir Gabriel, então Governador do Pará, pelo PSDB).

Tais “especialistas” no sistema carcerário nacional, mostraram-se (nas frente das lentes da TV, é claro) até mesmo surpresos por não ter, LÁ EM ABAETETUBA, um Penitenciária Feminina, outros, uma ala feminina na Delegacia.

Molecagem. Lá em Abaetetuba, MAL TEM DELEGACIA!

Aliás, aquele velho, antigo, secular problema em que celas de detidos de Delegacias viram celas de “presidiários”.

Sem entrar no mérito, pois até mesmo por ser óbvio demais, de que, em hipótese alguma poderia uma mulher (menor ou não de idade) ficar presa por um mês (nem um minuto que seja) com homens, a verdade é que, no interior do Pará, principalmente, a Polícia Civil está, há muito, falida.

Sem contar com a Polícia Militar, que, a duras penas e com balas contadas, literal e fáticamente, se viram nos rincões deste Estado.

Ali do lado, mantenho um “link” dos Procurados pela Polícia Civil. Importante mas é uma gota no oceano.

Vai começar (já começou) aquele papo-de-otário de “resolver a questão penitenciária do país”, “maiores repasses de verbas para políticas sociais”, “nunca na história desse país”, “a culpa é da Ana Júlia e de sua cabelereira”, ora, tudo isso pode até ser importante, também, mas, em algumas Delegacias já seria de grande começo uma, mesmo que porca, “caiada nas paredes”.

Ah, e sem contar com um aumento salarial, também.

Ps.: Abaetetuba: vem do tupi “abae’te“, de “a’ba“, que significa homem e “e’te“, verdadeiro, valente, forte, real, positivo, acrescido do sufixo coletivo “tuba“: homem verdadeiro, valente, forte. (fonte: livro “Cidades do Pará – origem e significado de seus nomes”, de João Carlos Vicente Ferreira, Editora Buriti, 2003, pág. 19)

Ppss.: “Direitos Humanos, então, não é expressão que deva ser associada a idéias negativas como desigualdade e impunidade. Pelo contrário, sua ligação é com os ideais de liberdade e de justiça, que devem presidir, sempre, o relacinamento entre os homens.! (fonte: livro “Direitos Humanso – cidadania – trabalho”, do prof. José Cláudio Monteiro de Brito Filho, 2004, pág. 10)