Noel Rosa x Wilson Batista (vencedor: a humanidade)

Feitiço da Vila é uma canção de Noel Rosa, composta em 1934 para homenagear seu bairro, Vila Isabel. Nessa época, Noel e Wilson Batista, um compositor de samba carioca, estavam envolvidos em uma polêmica. Para contrapôr o Feitiço da Vila, Wilson compôs Conversa fiada e teve como resposta de Noel o antológico Palpite infeliz.

Polêmicas à parte, com Feitiço da Vila, Noel Rosa traz novos elementos para a compreensão do samba. Nesta composição ele trata o samba como um feitiço, que contagia os que ouvem, assim como já se entendia anteriormente. Porém é um feitiço “decente”, o que denota uma preocupação com a receptividade social e comercial.

Nesta composição Noel também afasta o samba do significado e da relação que se fazia à cultura e religiosidade afro-brasileira, afirmando ser o feitiço “sem farofa, sem vela e sem vintém”.

Palpite infeliz foi um samba composto por Noel Rosa em 1935. É considerado o ápice da disputa entre ele e o sambista Wilson Batista. Wilson havia composto a canção Lenço no pescoço, uma homenagem ao estilo de vida Malandro, à qual Noel responde com o samba Rapaz Folgado, uma crítica àquele estilo de vida. Wilson então compõe O Mocinho da Vila, ao que Noel responde com a obra-prima o Feitiço da Vila. Wilson segue com Conversa Fiada e finalmente Noel lança Palpite Infeliz, um sucesso sem igual.

Wilson, irritado compõe uma música criticando um defeito físico de Noel, mas ele não retruca a provocação. Wilson insiste com outra música, Terra de Cego, e Noel usa a mesma melodia para compor a resposta, Deixa de Ser Convencida, que encerra a polêmica. O subsequente sucesso das músicas de Noel O feitiço da Vila e Palpite Infeliz indubitavelmente dão a ele a vitória nesta disputa.

Fonte: Wikipedia

Lenço no Pescoço
Wilson Batista

Meu chapéu do lado
Tamanco arrastando
Lenço no pescoço
Navalha no bolso
Eu passo gingando
Provoco e desafio
Eu tenho orgulho
Em ser tão vadio

Sei que eles falam
Deste meu proceder
Eu vejo quem trabalha
Andar no miserê
Eu sou vadio
Porque tive inclinação
Eu me lembro, era criança
Tirava samba-canção
Comigo não
Eu quero ver quem tem razão

E eles tocam
E você canta
E eu não dou

Rapaz Folgado
Noel Rosa

Deixa de arrastar o teu tamanco
Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco
Compra sapato e gravata
Joga fora esta navalha que te atrapalha

Com chapéu do lado deste rata
Da polícia quero que escapes
Fazendo um samba-canção
Já te dei papel e lápis
Arranja um amor e um violão

Malandro é palavra derrotista
Que só serve pra tirar
Todo o valor do sambista
Proponho ao povo civilizado
Não te chamar de malandro
E sim de rapaz folgado

O Mocinho da Vila (não tem registro no Youtube)
Wilson Batista

Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão, barracão e outros fricotes mais
Se não quiser perder
Cuide do seu microfone e deixe
Quem é malandro em paz
Injusto é seu comentário
Falar de malandro quem é otário
Mas malandro não se faz
Eu de lenço no pescoço desacato e também tenho o meu cartaz

Feitiço da Vila
Noel Rosa

Quem nasce lá na Vila
Nem sequer vacila
Ao abraçar o samba
Que faz dançar os galhos,
Do arvoredo e faz a lua,
Nascer mais cedo.

Lá, em Vila Isabel,
Quem é bacharel
Não tem medo de bamba.
São Paulo dá café,
Minas dá leite,
E a Vila Isabel dá samba.

A vila tem um feitiço sem farofa
Sem vela e sem vintém
Que nos faz bem
Tendo nome de princesa
Transformou o samba
Num feitiço descente
Que prende a gente

O sol da Vila é triste
Samba não assiste
Porque a gente implora:
“Sol, pelo amor de Deus,
não vem agora
que as morenas
vão logo embora

Eu sei tudo o que faço
sei por onde passo
paixao nao me aniquila
Mas, tenho que dizer,
modéstia à parte,
meus senhores,
Eu sou da Vila!

Conversa fiada
Wilson Batista

Composição: Wilson Batista

É conversa fiada dizerem que o samba na Vila tem feitiço
Eu fui ver para crer e não vi nada disso
A Vila é tranqüila porém eu vos digo: cuidado!
Antes de irem dormir dêm duas voltas no cadeado
Eu fui à Vila ver o arvoredo se mexer e conhecer o berço dos folgados
A lua essa noite demorou tanto
Assassinaram o samba
Veio daí o meu pranto

Terra de Cego
Wilson Batista

Perde a mania de bamba
Todos sabem qual é
O teu diploma no samba.
És o abafa da Vila, eu bem sei,
Mas na terra de cego
Quem tem um olho é rei.
Pra não terminar a discussão
Não deves apelar
Para um barulho na mão.
Em versos podes bem desabafar
Pois não fica bonito
Um bacharel brigar.

Deixa de ser convencida (não tem registro no Youtube)
Noel Rosa

Deixa de ser convencida
Todos sabem qual é
Teu velho modo de vida

És uma perfeita artista, eu sei bem,
Também fui do trapézio,
Até salto mortal
No arame eu já dei.

E no picadeiro desta vida
Serei o domador,
Serás a fera abatida

Conheço muito bem acrobacia
Por isso não faço fé
Em amor, em amor de parceria
(Muita medalha eu ganhei!)

Uma resposta para “Noel Rosa x Wilson Batista (vencedor: a humanidade)”

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