É doido, talvez, mas é malaco

Com o este título, Walter Rodrigues, o dono do Blog do Colunão, retorna às atividades, depois de 20 dias parado.

O texto, o estilo lembra alguém… ah, como queria que os parágrafos finais se repetissem por estas bandas!

É doido, talvez, mas é malaco

Faltou um Paulo Francis na imprensa nacional para explicar o comportamento de Eduardo Cartão Vermelho Suplicy. Longe de ser meu modelo de bom jornalista, Francis entretanto tinha um jeito até cruel de dizer as coisas que, quando não eram desnecessárias ou contaminadas pelo preconceito, serviam ao esclarecimento do que outros temiam revelar. As singularidades de Suplicy, por exemplo.

Estranha mistura de carola, esquerdista, intelectual, malandro e idiota, Suplicy, segundo os padrões convencionais, é doido. Mas basta pensar que é senador há quase 20 anos para acrescentar que algo nele deve ser extraordinariamente arguto, para que suas evidentes desvantagens não lhe atrapalhem a vida.

Aqui, embora não seja exatamente o caso, não posso esquecer do grande Bertrand Russell, grande até nos erros que eventualmente cometeu. Numa defesa sarcástica do regime democrático, Russell observou que “por mais idiota que seja o eleito, mais idiota é quem votou nele”. Um político brasileiro disse de outra maneira, referindo-se ao Congresso: “Aqui não tem besta. O mais besta enganou milhares de eleitores”.

Francis costumava chamar nosso personagem de Eduardo Gardenal Suplicy, escarnecendo da sua frequente lentidão de raciocínio. Dizia que ele falava assim: “Eu… vou… viajar”. Isso na calma. Quando enraivecido, costuma engatar numa palavra, numa frase ou numa idéia, que fica então repetindo sem ligar a mínima para o contexto.

Foi o que aconteceu quando desafiou o senador Heráclito Fortes (DEM-PI) a dizer por que o acusava de insinceridade.

— “Então diga! Diga agora, diga agora, diga agora!”, repisava aos gritos, batendo com a mão na tribuna, sem deixar que o outro falasse o que queria.

Será que endoidava de caso pensado? Improvável. Nem um ator profissional fingiria tão bem.

Dê uma olhada nos vídeos disponíveis na Internet. É esquisito o contraste entre o dia em que “dá cartão vermelho” (a Sarney e ao próprio Heráclito) e o dia seguinte, quando o ferrabrás se converte em cordeiro pascal, acolhendo com sorriso infantil a zombaria insistente dos colegas.

A explicação para o contraste pode ser bem simples. Receitar o Gardenal é fácil. Difícil é acertar a dose.

Pomba do divino

Eduardo Matarazzo Suplicy pertence a tradicionais famílias de imigrantes italianos. Católico fervoroso, estava no banheiro de uma estação rodoviária em Nova Délhi, Índia, quando a luz divina desvendou-lhe o caminho da conciliação entre Marx e Jesus. Entusiasmado (no sentido original do termo, que remete ao êxtase místico), ajoelhou-se ali mesmo, no chão imundo, e começou a rezar em voz alta, presumivelmente em português.

Um guarda, imaginando estar diante de um maluco inofensivo, tentou fazê-lo deixar o local, puxando-o pelo braço. Levou um soco que o pôs a nocaute. O pugilista estrangeiro foi detido pela polícia indiana, mas tudo se ajeitou rapidamente, com ajuda da embaixada.

Uma vez, num debate de candidatos ao Governo de São Paulo, tirou da pasta um coelho e uma tartaruga de plástico. Mal tinha acabado de ensinar que a tartaruga é vagarosa e o coelho veloz, quando o mediador anunciou que seu tempo estava esgotado.

Até hoje ninguém sabe qual tese ele pretendia demonstrar com suas miniaturas zoológicas, “Essa eleição fez muito bem ao Eduardo”, motejou pouco depois o deputado Delfim Netto, perfeito exemplar do canalha espirituoso. “Serviu para que o povo conhecesse os bichinhos com que ele dorme de noite”.

Foi candidato a prefeito também, na sucessão da petista Luiza Erundina. Quando a apuração já estava definida em favor do arqui-inimigo Paulo Maluf, declarou algo assim, na TV: “Eu ainda tenho esperança de que essas forças cósmicas que estão por aí se congreguem para nos dar a vitória”.

Era de ver a cara de bobo, não do entrevistado, mas dos repórteres perplexos. Sabe-se lá o quanto disso procede da natureza, e quanto dos remédios.

Quando a mulher o deixou, Suplicy fez o Waldick Soreano sem a mínima vergonha, chegando até a chorar nas entrevistas confessionais sobre a traição de sua “eterna namorada”. Mas muita gente — Martha Suplicy, entre outros — desconfia que também usou conscientemente o escândalo para vingar-se da prefeita, ajudando a derrotá-la na tentativa de reeleição. Dessa suspeita defendeu-se sorrindo, sorrindo muito, numa sessão do Senado, com apartes solidários de ACM velho, Pedro Simon e do próprio Heráclito Fortes. Talvez uma parte dele industrialize a outra parte para melhor vendê-la em proveito próprio, o malaco vivendo à custa do otário.

E ambos do político refletido e honesto. Quem leu os escritos dele sobre Renda Mínima encontra ali o esboço de um programa social talvez ainda inexequível, porém mais avançado e humanista que o Bolsa Família de Lula. Observe também como se porta nas CPIs. Faz três perguntas cretinas ou simplesmente incompreensíveis e, de repente, não mais que de repente, parece mais inteligente que todo mundo.

Falou-se acima em honestidade. Não quer dizer que seja santo, apenas que evita o escândalo. Certa vez o denunciaram por ter pago pelo Senado a conta do psicaanalista que o tranquilizou no período do divórcio. “Me disseram que podia”, justificou-se candidamente, sem que ninguém se lembrasse de lhe mostrar nem mesmo um “cartão amarelo” por causa disso. Bobo?

Bobo esperto

Recentemente tentou convencer o presidente de que derrubar Sarney e entregar o Congresso ao PSDB não traria prejuízos ao governo, porque o tucano Marconi Pirilo, atual vice-presidente, prometia governar o Senado de maneira “republicana”. Lula reagiu da maneira caracteristicamente rude e cínica: “Você acredita em Papai Noel também?”. E, como o outro insistisse: “Diz aqui uma coisa: você acha que alguém vai acreditar que você, com 18 anos de mandato, não sabia de nada do que acontecia no Senado?”.

Não se iluda com o aparente bom humor do presidente. Ele, Martha, Berzoini, Dirceu etc detestam o estilo espalhafatoso e santarrão do correligionário, do qual nunca sabem quando está sendo maluco ou malaco.

Até os colunistas mais hostis ao governo admitem que essa de “cartão vermelho”, ainda por cima fora de hora, não foi mais que uma patacoada exibicionista. Mas bobo será quem pensar que Suplicy perdeu voto por causa disso. Como diria Shakespeare, há método nessa loucura. Mesmo quando ele não toma o remédio na hora certa.

Queridos leitores

Desculpem os “três” dias de ausência que se transformaram em mais de 20. Se não fosse a pressão de vocês — doce pressão, devo admitir — ficaria ausente mais uns 40.

Volto devagar. Só daqui a um ou dois meses posso passar a quinta.

Obrigado por tudo.

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Sobre Lafayette

Xipaia... o último dos guerreiros!
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2 respostas para É doido, talvez, mas é malaco

  1. tadeu disse:

    O Maluf acabou com ele na disputa da prefeitura , quando ele corneado uma vez mais desaparaceu por 3 dias escondido (diz-que)em um sítio chorando as mágoas e o malufão gritava histérico : “Onde e porque o Sr. se escondeu?” e por conta desse jeito gardenal de ser nos botecos era comentado que se deixassem duas tartarugas para o Suplicy tomar conta , no dia seguinte uma teria fugido e a outra engravidado
    Figuraça ,apesar de que entre ele e o Maluf ainda fiquei com ele afinal ele não morde , acho eu.
    Abs
    Tadeu

    • Lafayette disse:

      Naquela endiabração dele com o crápula do Heráclito, confirmei: Pô, ele é cortês até quando fica puto! 🙂 🙂

      Na moral… sou mais o Supla! 😉

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