Entrevista com a Governadora

A jornalista, Ana Célia Pinheiro, no seu ímpar A Perereca da Vizinha, em 30/12/2009, publicou “os principais trechos” da entrevista que fez com a Ana Júlia Carepa (PT), a Governadora do Estado do Pará. Belo trabalho jornalístico e político de Ana Célia, fechando, com louvor, o ano de 2009.

É de se destacar, também, a democrática atitude da Ana Júlia, já que Ana Célia já realizou e publicou algumas reportagens investigativas que acertam, em cheio, a administração da Governadora, conforme se pode ler aqui, aquiaqui, aqui e vários outros aqui’s por lá!

Ana Célia já tinha feito uma importante entrevista com o Puty (Cláudio Puty), Chefe da Casa Civil da Governadora, e principal articulador político para 2010, ano da reeleição.

Segue parte da blogagem:

Ana Júlia acusa senadores e diz que saúde terá “alta” da UTI

Agora em janeiro, em seu próximo aniversário, Belém vai ganhar do Governo do Estado um presentão: 26 infocentros, em diversos bairros. Ou espaços em que a população, especialmente a de baixa renda, terá acesso gratuito à internet em alta velocidade.

Mais: cinco áreas da capital, entre as quais o Ver o Rio, a orla de Icoaraci e a Estação das Docas virarão territórios de livre acesso à internet.

É o que o Governo petista classifica como “política estruturante”. Ou, como prefere a governadora Ana Júlia Carepa, os frutos da mudança.

Na noite da última segunda-feira, Ana concedeu entrevista exclusiva de duas horas à Perereca da Vizinha.

Falou sobre tudo: Belo Monte, a relação do Pará com a Vale, os projetos de verticalização das riquezas paraenses, a ameaça de divisão do estado, as relações com o PMDB.

Fez, em suma, um longo balanço destes três anos de Governo.

Disse que recebeu o Pará sucateado, por 12 anos de uma política tucana voltada para o Estado mínimo.

A situação da segurança pública era tão dramática, afirma a petista, que os policiais da Seccional do Comércio tinham de “disputar no palitinho” para ver quem usaria o único colete à prova de balas.

Defendeu-se das críticas à gestão da saúde pública, lembrando, por exemplo, que encontrou um acelerador linear do hospital Ofir Loyola “nos porões da Sespa”, onde estaria metido desde 2004.

Atribuiu aos senadores paraenses parte da responsabilidade pelo drama da saúde pública, em todo o país, por terem votado contra a CPMF.

Mas também reconheceu que a saúde paraense ainda se encontra na UTI, embora que em vias de “receber alta”.

Defendeu reserva de mercado para os paraenses, nos empregos gerados por projetos de empresas como a Vale.

Falou sobre os kits escolares e rebateu as acusações de nepotismo, por ter no secretariado o ex-marido e o ex-cunhado.

E garantiu: o PT está “destravando” o Pará, ao transformar em realidade projetos que, na época dos tucanos, eram tão somente propaganda.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como é que a senhora avalia esses três anos de governo?
Ana Júlia:
Quero dizer que neste momento estou feliz porque, depois de três anos de governo, podemos colher os frutos da mudança. E as mudanças, no nosso estado, precisavam ser estruturantes. Quando você fala em mudar, é reconstruir o Estado, em todas as suas áreas. Antes, quem governou este estado por mais de uma década, governou com a concepção do Estado mínimo. E nós entendemos que o papel do Estado, além de atender às questões básicas da população, é também o de fomentar o desenvolvimento – a geração de emprego, a distribuição de renda. A crise mundial comprovou que essa tese está correta. Se não tivesse instrumentos públicos para fomentar a economia privada, o Brasil teria sofrido muito mais na crise econômica. Pudemos passar mais rápido por ela porque temos um Estado forte, uma presença forte de bancos públicos, como o Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES. Então, no Pará, essa mudança exige tempo, porque a utilização dos recursos naturais para gerar emprego e renda não se faz da noite pro dia. É a reconstrução daquilo que foi literalmente abandonado. E não porque alguém resolveu dizer: “ah, vamos abandonar a saúde, a educação, a segurança pública porque não temos recursos para isso”. Mas porque era a defesa do ideário político de um Estado mínimo.

Mas os tucanos alegam que pegaram o estado sucateado e que o reconstruíram e estruturaram para o desenvolvimento econômico: estradas, energia elétrica. Dizem que avançaram em vários aspectos, inclusive acabando com o “aluno-jacaré”. Não foi esse o cenário que a senhora encontrou?
Ana Júlia:
Não. Podemos dizer o seguinte: teve a Alça Viária; é uma obra nova e não posso negar que é importante. Agora, para quem passou doze anos, passou dez anos sem fazer concurso para a Polícia Militar? Encontrei a segurança pública completamente sucateada; encontrei as escolas sucateadas. Não estou fazendo uma pequena reforma em mais de mil escolas – e já reformamos 650. Estou é fazendo uma reconstrução, porque as escolas têm de ser equipadas. Tenho de mudar o mobiliário, recuperar o telhado, construir laboratório, quadras esportivas, ligar na internet. Então, que reconstrução é essa? Reconstrução quem está fazendo sou eu! Só em termos de viaturas para a Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros já adquirimos mais de 1.100, entre carros, motos e lanchas.

Mas dá para recuperar o tempo perdido na segurança pela falta de concursos e de investimentos?
Ana Júlia:
Nós estamos recuperando isso. As pessoas entendem que a violência é um fenômeno nacional, e até mundial. Mas as pessoas também percebem que está havendo um combate maior à violência, uma defesa da segurança pública, seja na ampliação do efetivo, seja em relação às viaturas e equipamentos. Quando eu assumi, havia, na Seccional do Comércio, apenas um colete à prova de balas para quatro policiais: tinha que tirar no palitinho para ver quem é que ia pra rua com um colete à prova de balas. E, detalhe: muitos dos coletes existentes naquela época estavam com a validade vencida. Hoje, o policial tem o colete, o armamento, a munição. É uma situação completamente diferente. No início deste ano, entreguei uniformes para os bombeiros, que, há dez anos, não recebiam nem uniformes, nem capacetes. Foi essa a realidade que encontrei. Então, na verdade, tinha um governo de propaganda – era muita propaganda.

Mas o PT também não faz muita propaganda? Os gastos do governo também não são expressivos?
Ana Júlia:
Pelo contrário: são ínfimos. E muito menos do que o necessário, porque você precisa prestar contas à sociedade, para ela saber o que está sendo feito. Acho até que falamos muito pouco para a sociedade sobre o que estamos fazendo. Agora é que estamos ajustando essa situação, para a população saber as tantas obras que temos feito. É reconstrução na segurança pública, na saúde, na educação. E não só de reconstruir as escolas, mas, de levar internet, capacitar educadores. Já temos 25 mil educadores que participaram de cursos, desde o início do nosso governo.

Mas isso dá voto?
Ana Júlia:
Não estou preocupada… Não posso ser uma governante… No dia seguinte à minha eleição, eu disse que não faria um governo “melhorzinho”, mas, um governo de transformação. Então, não posso me guiar pela única lógica da eleição. Tenho de me guiar pela lógica de que estou transformando o estado, cuidando das pessoas. É claro que se compreendo que grande parte da sociedade acha que esse é o melhor projeto, que ele está no rumo certo, quero que ele continue; que as mudanças continuem acontecendo. Mas não tenho dúvida de que questões como essas mudam, sim, a vida das pessoas.

A senhora não acha que essa pulverização das obras e a falta de obras grandes para “vender” ao eleitor colocam em risco a sua reeleição?
Ana Júlia:
Não, porque as pessoas entendem que as nossas maiores obras são… Vou inaugurar amanhã uma estrada de doze quilômetros, um estádio de futebol, que não é o Mangueirão. Vou entregar uma moto e uma viatura de polícia. Mas o povo da cidade está tão feliz, que a obra maior que a gente inaugura é o sorriso das pessoas. A gente colhe sorrisos, a alegria das pessoas quando elas recebem um benefício. A minha maior alegria é ver, por exemplo, um jovem beneficiado pelo programa Bolsa Trabalho, através do qual 15 mil jovens já conquistaram emprego com carteira assinada. Essa é a nossa maior obra! A nossa maior obra é os 8.500 jovens que recebem o Pró-Jovem urbano, em 20 municípios do Pará. E nós combinamos isso a grandes obras, sim. Por exemplo, destravamos o Pará em relação a questões em que o Estado não se preparou, como a questão ambiental e agrária. Destravamos o Pará em relação a obras que há 19 anos estavam entravadas, como essas do “Ação Metrópole” – que são necessárias para o trânsito da Região Metropolitana de Belém e que sou eu que estou transformando em realidade. Antes de ser governadora, fui ao presidente Lula e à ministra Dilma Rousseff para conseguir realizar um sonho do povo paraense. Somos a maior província mineral do mundo, mas o nosso minério é exportado de forma primária; no máximo, semi-elaborado. E, para que possamos verticalizar o minério, trazer uma siderúrgica grandiosa para cá, precisamos contar, sim, com o apoio do presidente Lula e da ministra Dilma. Então, destravamos obras como as eclusas de Tucuruí, a BR-163 (Santarém-Cuiabá), a pavimentação da Transamazônica, a Hidrovia Araguaia-Tocantins, a ampliação do porto de Vila do Conde, o porto de Marabá, que é um convênio de mais de R$ 70 milhões e que está na fase de elaboração do projeto executivo. Isso é uma obra estruturante que vai gerar milhares de empregos.

Pois é, mas é aí que se fala: vários desses projetos – eclusas, BR-163 – são recursos federais. Cadê, então, o dinheiro do estado do Pará para investimento?
Ana Júlia:
Olha, deixa eu te dizer: primeiro, me sinto muito feliz, uma governadora muito competente, pelo fato de estar trazendo obras importantíssimas para o estado, que estavam, há muito tempo, paralisadas e que agora estão acontecendo. Então, precisou ter competência e peso político para trazer essas obras. Segundo: só em Marabá, temos mais de R$ 50 milhões, entre a desapropriação da área e todas as etapas do Distrito Industrial; a contrapartida do porto de Marabá, que é alta, além da própria desapropriação da área do porto; os recursos para a revitalização do Distrito Industrial, que são mais de R$ 13 milhões. Portanto, é um governo que, além de investir com recursos próprios, tem a capacidade de buscar recursos federais. E veja: várias das obras que os meus adversários propagandeiam, também não são do Governo do Estado – são federais. O aeroporto, por exemplo, é recurso federal, é recurso da Infraero. Então, pelo contrário: nós estamos investindo mais do Tesouro Estadual, em todas as áreas. E, ao mesmo tempo, estamos tendo a competência de atrair investimentos federais para o nosso estado. Isso é mudança estruturante. Conseguimos uma solução para o embargo da carne do Pará, que só foi possível por causa do papel do Governo do Estado. Quando o Ministério Público indicou que não se comprasse a carne do Pará, fizemos mais de uma dezena de reuniões com ele. Agora, graças a quê? Já tínhamos mandado para a Assembléia Legislativa, desde 2007, o projeto de regularização fundiária. Já tínhamos feito, em 2008, o cadastro ambiental rural. Já havíamos lançado o plano de proteção à floresta, com a meta de redução de 80% do desmatamento ilegal até 2020. Já tínhamos feito o Zoneamento Econômico-Ecológico da região Oeste e já íamos iniciar as audiências públicas, que agora já foram todas as feitas, para o Zoneamento Econômico-Ecológico da borda Leste.

Muitas dessas iniciativas não vêm ainda dos tempos dos tucanos, como é o caso do Zoneamento Econômico-Ecológico?
Ana Júlia:
Se montou o macro Zoneamento Econômico-Ecológico. Veja bem: só posso alterar a reserva legal, que hoje é de 80% em toda a Amazônia, depois que fizermos o Zoneamento Econômico-Ecológico na escala de 1 para 250 mil. É isso que o Governo do Estado está fazendo. Contamos com o apoio do Governo Federal? É claro. O presidente Lula assinou um decreto que permitiu esse zoneamento na escala de 1 para 250 mil, que é uma escala mais detalhada, que permite que a reserva legal seja alterada, nas áreas já desmatadas, de 80% para 50%, que é o que vai ocorrer em quase toda a borda Leste do estado, porque é uma área que já foi quase toda desmatada, mas que vai ter recuperação de reserva legal. Então, essa questão pode ter começado com o macro-zoneamento. Mas, o que terá efeito prático, inclusive para a vida do cidadão, é isso que estamos fazendo. E outra coisa: cadê a regularização fundiária? Cadê o cadastro ambiental rural? Cadê a regularização ambiental? Hoje, o mundo inteiro questiona como é que cada sapato, cada roupa, cada alimento é produzido. O mundo quer saber se isso é feito de forma sustentável, principalmente num estado da Amazônia.

Essa redução da reserva legal de 80% para 50% não vai na contramão do mundo?
Ana Júlia:
Essas áreas não têm nem 50% de reserva. Então, pelo contrário: as pessoas vão é recuperar a reserva legal, elas vão plantar. O decreto que assinamos diz de que forma as pessoas podem recuperar a reserva. Queremos fomentar que elas façam isso e ganhem dinheiro ao mesmo tempo. E quando você refloresta, com qualquer que seja a espécie, você está seqüestrando carbono da atmosfera – é uma forma eficiente de contribuir para o clima do planeta. Então, isso é mudança estruturante. Se hoje estamos podendo vender a nossa carne e até ampliamos a exportação para a Venezuela, é porque fizemos o dever de casa. E também porque o Governo do Estado é mais do que um governo que reconstrói as políticas públicas: é um governo que fomenta a economia do nosso estado; que ajuda os produtores privados a inclusive ampliar os seus empreendimentos. E como? Fortalecendo essa relação com a Venezuela. Antes se achava que isso não era necessário, que isso não é papel do Estado. Eu compreendo que isso é, sim, papel do Estado – não vou substituir o produtor! Eu apenas estou ajudando a que esses produtores tenham uma melhor relação. A gente ajuda nas exportações e também vamos importar produtos que não temos aqui. Por exemplo: precisamos de fertilizantes, que não temos aqui, mas, temos na Venezuela. Então, só estou colocando pra você que isso é mudança estruturante. Vou entregar agora em janeiro, no mês de aniversário de Belém, 26 infocentros – só em Belém. Vou disponibilizar cinco áreas públicas com sinal livre de internet em Belém.

Quantas pessoas serão atingidas por esses infocentros?
Ana Júlia:
Milhares. E em vários bairros. Entregaremos 26 infocentros no Tapanã, Icoaraci, Coqueiro, Condor, Val de Cans, Sideral, Outeiro, Benguí, Reduto, Cremação, Pedreira, Curió-Utinga, Barreiro, Marco, Telégrafo, Terra Firme, Tucunduba, Marambaia. E vou anunciar mais oito infocentros, ainda no primeiro semestre, para o Tapanã, Campina, Cremação, Guamá, Mangueirão, Telégrafo e Jurunas.

Para ler a entrevista completa clique aqui.

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Xipaia... o último dos guerreiros!
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