O que Almir está dizendo

O blog A Perereca da Vizinha, da jornalista Ana Célia, continua sendo um dos melhores blogs de política da terra papa-chibé.

Veja esta entrevista com o Almir Gabriel, publicada lá:

Quarta-feira, Janeiro 06, 2010

Simão Jatene, o candidato da Vale

Desde o dia 29 de dezembro, ando numa aflição danada, porque não sei exatamente o que escrever a vocês.

Naquela fatídica terça-feira, participei de uma entrevista com o ex-governador Almir Gabriel, na qual ele levantou suspeitas gravíssimas acerca das relações entre a Vale e o economista Simão Jatene, também ex-governador do Pará.

Almir disse, com todas as letras, que a Vale “já está financiando” Jatene, quando perguntado se a empresa financiará a campanha do tucano ao Palácio dos Despachos, neste ano.

Também levantou a suspeita de que Jatene teria feito “corpo mole” na campanha de 2006 em decorrência de uma articulação com a Vale.

Insinuou que o empenho de Jatene em se tornar o pré-candidato do PSDB às eleições de 2010 também pode decorrer de uma nova articulação com a empresa.

E não descartou a hipótese de que o ex-governador tenha recebido dinheiro daquela mineradora.

“Está aí um ótimo tema para você pesquisar”, respondeu Almir, quando lhe perguntei se a Vale teria dado dinheiro a Jatene, para que ele não se empenhasse na campanha de 2006.

Almir também confirmou que foi a Vale a financiar a “maior parte” da campanha de Jatene, ao Governo do Estado, em 2002.

E, a certa altura da entrevista, chegou a lembrar os boatos que circulam nos bastidores políticos, dando conta de que Jatene teria passado a “trabalhar para a Vale”, ao término de sua administração, em 2006.

Em suma: Almir parece acreditar que, ainda como governador, Jatene já possuía um “compromisso” com a Vale, empresa que detém o monopólio de exploração de boa parte das riquezas paraenses.

E, no dizer de Almir, a Vale mantém, hoje, em relação ao Pará, o mesmo “espírito colonizador” dos portugueses e dos ingleses, em séculos anteriores.

II

Fosse o Brasil um país sério, as explosivas declarações de Almir resultariam em um escândalo nacional, a ensejar até mesmo uma CPI.

Afinal, quer se goste dele ou não, Almir é um ex-governador e uma liderança política que ajudou a fundar um dos maiores partidos brasileiros – o PSDB, ao qual também pertence Simão Jatene.

Além disso, estava no comando do Governo do Pará aquando da eleição de Jatene, em 2002.

Mais: há não apenas indícios, mas provas, de que foi a Vale a bancar a maior parte da campanha de Jatene, naquele ano.

Como mostrei em matéria publicada neste blog, em 15 de dezembro de 2009, a Vale doou uns 60% dos recursos que irrigaram a campanha de Jatene, através de uma triangulação que envolveu o Comitê Financeiro Único do PSDB.

E quando se consideram apenas as doações das empresas beneficiadas por incentivos fiscais paraenses, as contribuições da Vale chegam a atingir cerca de 80%.

(A íntegra da matéria pode ser lida aqui http://pererecadavizinha.blogspot.com/2009/12/vale-e-empresas-incentivadas-bancaram.html )

Aliás, depois de escrever aquela matéria voltei a pesquisar no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e confirmei que, de fato, nenhum candidato, no Brasil inteiro, recebeu tanto dinheiro da Vale, em 2002.

Em outras palavras: nem os candidatos à Presidência da República, nem o tucano Aécio Neves, que concorria naquele ano ao Governo de Minas Gerais, estado onde a Vale também possui importantes interesses, receberam tanto dinheiro dessa empresa quanto Simão Jatene.

(Naquela matéria, como não havia essa certeza, usei a expressão “provavelmente”.)

E vejam bem: esses são dados oficiais, relativos ao dinheiro doado em cheque e devidamente contabilizado nas prestações das contas de campanha à Justiça Eleitoral.

E, pelos dados oficiais, a campanha de Jatene ao Governo, em 2002, custou, apenas, R$ 2,895 milhões…

III

Só as informações oficiais do TSE publicadas por este blog já são extremamente inquietantes.

Porque a primeira pergunta que nos vem à cabeça é: qual o motivo dessa “simpatia”, desse entusiasmo da Vale por Simão Jatene?

Ou, de forma mais clara: qual o motivo que leva a empresa que detém o monopólio da exploração de boa parte das riquezas paraenses, a financiar, de forma tão expressiva, um candidato ao Governo do Pará?

No entanto, tudo isso se torna ainda mais aflitivo diante das declarações de Almir Gabriel.

Até porque, antes ainda dessa fatídica entrevista, eu também já ouvira o boato acerca da espantosa consultoria que Jatene teria passado a prestar à Vale, após deixar o Governo.

Não disse nada porque considerei isso uma coisa tão absurda, um erro tão primário, que até descri.

Mas, pedi a uma fonte que verificasse se há, de fato, algum fundo de verdade em tudo isso.

IV

É por isso que passei a semana angustiada.

Gostaria de simplesmente esquecer as declarações de Almir ou de considerá-las de somenos importância.

No entanto, sou repórter – e uma repórter tarimbada.

Tenho perfeita consciência de que de tudo o que Almir falou naquela entrevista, as declarações dele acerca das relações entre Jatene e a Vale são, de longe, o mais importante.

Afinal, Jatene será novamente candidato ao Governo do Pará e a riqueza e o poderio da Vale não derivam, apenas, da boa gestão da empresa, mas, também, da forma como explora as nossas riquezas e das relações profundamente desiguais que mantém com o estado do Pará.

Mas, não vou mentir pra vocês: gostaria de jamais ter ido àquela entrevista e de jamais ter de escrever este post.

Uma coisa é aproveitar a deixa daquela carta da desfiliação-que-não-houve de Almir, para divulgar dados que estão no site do TSE, disponíveis, portanto, a qualquer cidadão e a qualquer repórter que se disponha a pesquisá-los.

Outra coisa é juntar a tais dados às declarações de um ex-governador, a adensar suspeitas complicadíssimas sobre um candidato que eu considerei, até aqui, o melhor para o momento vivido pelo Pará – e isso não deve ser surpresa para ninguém, uma vez que sempre fui muito clara nas minhas posições.

Por isso, na semana passada, dei graças a Deus porque, na segunda-feira, 28 de dezembro, a governadora Ana Júlia Carepa me havia concedido uma longa entrevista exclusiva.

Assim, como sou só uma, tive de optar entre a publicação da entrevista exclusiva com a governadora e a entrevista do ex-governador Almir Gabriel, a mim e à repórter Rita Soares, do jornal Diário do Pará.

Optei pela entrevista de Ana Júlia – e penso que nenhum jornalista irá considerar que errei do ponto de vista técnico.

Mas, não posso simplesmente deixar de publicar as declarações de Almir, até pelo ângulo que me pareceu mais importante.

V

Decidi publicar as declarações de Almir apenas após as festas de fim de ano, que estrangulam qualquer debate.

Decidi, também, que utilizaria, para isso, não o formato de entrevista, mas, um estilo mais livre, de forma a me permitir comentários.

Até para que possamos refletir acerca das circunstâncias que as cercaram.

E até para que, eventualmente, a gente não acabe cometendo alguma injustiça em relação ao ex-governador Simão Jatene, a quem é preciso garantir o benefício da dúvida.

Aliás, este blog está à disposição de Jatene para quaisquer declarações que queira prestar sobre esse assunto – e Jatene, eu sei, é leitor, há anos, da Perereca da Vizinha.

VI

A entrevista de Almir Gabriel foi solicitada pelo próprio.

Almir e Jatene, como todos vocês sabem, foram amigos durante mais de 20 anos e foi Almir quem elegeu Jatene ao Governo do Estado, em 2002.

A ruptura pública veio no início deste ano, quando Almir, em entrevista ao Diário do Pará, acusou Jatene de ter feito “corpo mole” na campanha de 2006.

Naquela ocasião, Almir concorria a um terceiro mandato de governador do Pará, sempre pelo PSDB.

Mas, acabou derrotado pela petista Ana Júlia Carepa.

Para a entrevista do último dia 29, foram convidados apenas três jornalistas: Rita Soares, repórter especial do Diário do Pará; Ronaldo Brasliense, repórter especial do jornal O Liberal; e eu, que mantenho este blog.

Mas, só Rita e eu comparecemos.

A entrevista começou às 17 horas e durou quase duas horas e meia.

Almir começou esclarecendo que não havia convocado órgãos de imprensa, mas, determinados jornalistas, e não para uma entrevista, mas para prestar esclarecimentos que julgava importantes.

Por outras palavras, queria nos dar informações que nos ajudassem a refletir, para uma visão mais clara do quadro político.

Daí que não permitiu que gravássemos nada – e a Rita e eu tivemos de negociar exaustivamente com ele, para fazermos anotações e para que autorizasse a publicação de suas declarações, a exceção dos “offs” que ia indicando.

E quais eram os esclarecimentos, as informações que Almir julgava importantes?

A principal, ao que me pareceu, é que não age movido por ódio, raiva, mágoa ou sentimento semelhante em relação a Jatene. Mas, por questões estritamente políticas.

E, se queria esclarecer publicamente isso, também relutava em conceder entrevista, para não servir de “instrumento” aos adversários dos tucanos.

“Nunca fiz política com ódio”, disse ele, ao lembrar a longa trajetória política, iniciada em 1951, quando foi candidato ao cargo de secretário do Centro Acadêmico de Medicina.

E respondeu: “Se dissesse isso estaria dando a interpretação que todo mundo quer”, quando perguntado se é tucano ou ex-tucano.

Ele confirmou, palavra por palavra, a carta que ditou, há um mês, a Rita Soares, na qual anunciou a sua desfiliação do PSDB.

Mas esclareceu que não tem prazo para formalizar a decisão.

“Qual a lei que obriga a que me desfilie em 10, 20 dias? E não é só uma questão de prazo: é o momento político quem determina isso, é a conjuntura”, disse, acrescentando, mais adiante: “a desfiliação é uma arma política que vou usar quando e onde achar mais conveniente”.

Esclareceu, ainda, que, ao contrário do que foi divulgado pela imprensa local, não é obrigado a formalizar a desfiliação no PSDB paraense: como é um dos fundadores do partido, tem a prerrogativa de se desfiliar em qualquer ponto do País.

Mais adiante, retrucou, acerca da opção que fez pelo senador Mário Couto, como possível candidato do PSDB às eleições deste ano, ao Palácio dos Despachos: “Quem disse que sou obrigado a acertar tudo? Como ser humano, tenho direito de errar”.

E foi um erro?

“No final, sim”, disse Almir, “na medida em que ele (Couto) criou exigências extraordinárias (para desistir da pré-candidatura do PSDB) e que o Jatene acabou cedendo”.

Uma dessas exigências é, de fato, espantosa: segundo Almir, Jatene conseguiu a desistência de Mário Couto ao se comprometer a apoiá-lo ao Governo do Estado, em 2014.

É isso mesmo, vocês leram direito: Jatene, se eleito, já assumirá o Governo com o compromisso de apoiar Mário Couto à sua sucessão.

(continua)

Sexta-feira, Janeiro 08, 2010

Compromissos com a Vale explicam postura de Jatene, diz Almir

Esta matéria é a continuação da postagem

Jatene, o candidato da Vale”.

Ou seja: é a continuação da entrevista concedida a mim e à repórter Rita Soares, pelo ex-governador Almir Gabriel, na semana passada.

Aconselho, portanto, a leitura da primeira parte, que está aqui:

http://pererecadavizinha.blogspot.com/2010/01/simao-jatene-o-candidato-da-vale.html

Há um fato que embatuca o ex-governador do Pará Almir Gabriel: as mudanças comportamentais do economista e também ex-governador Simão Jatene.

A primeira aconteceu ao longo da campanha de 2006, quando Almir acabou derrotado pela petista Ana Júlia Carepa.

A segunda, no ano passado, aquando da definição da candidatura tucana às próximas eleições ao Governo do Estado.

“É inexplicável, para mim, o corpo mole de Jatene” – queixa-se Almir – “Senti o comportamento dele ir mudando durante a campanha. Toda semana nos reuníamos, para definir o que fazer, mas ele não cumpria o cronograma. Sempre tinha uma pescaria ou outro compromisso”.

O fato desperta em Almir suspeitas complicadíssimas, acerca das relações entre Simão Jatene e a antiga Companhia Vale do Rio Doce, hoje apenas Vale, a segunda maior mineradora do mundo, que há décadas explora as riquezas paraenses, com baixíssimo retorno social para o estado.

“Acho que Jatene, desde a época do governo, tinha compromisso com a Vale” – analisa – “Isso explica o corpo mole dele na minha campanha”.

Almir, que nos oito anos em que governou o Pará manteve com a empresa relações até conflituosas, revela dois episódios que ajudariam a clarificar a situação.

O mais importante:

-Certa vez, já candidato (em 2006), fui chamado para uma palestra na Fiepa. E lá eu disse que a Vale não é uma mineradora, mas, o braço de um banco, cuja moeda é o ferro, manganês, alumínio, ouro, caulim. E que ela trata o Pará como filial dessa empresa financeira. Aí, acrescentei o seguinte: que a Vale deveria cuidar da vulnerabilidade que tem – a ponte sobre o rio Tocantins e o mineroduto que transporta caulim e bauxita e a energia que alimenta as fábricas de Barcarena. E que talvez essa citação fosse a única forma de fazer a Vale sentar para negociar, de maneira honrosa, a atuação dela aqui, especialmente tendo em conta que Minas Gerais terá cada vez menos importância e, o Pará, maior projeção no lucro dela.

Mas a menção a essas vulnerabilidades não seria chantagem? – perguntou-se a Almir, na entrevista do último dia 29.

“Você defender o seu estado é chantagem?” – rebateu o ex-governador.

E acrescentou: “Por que a Vale não chega a industrializar os bens que extrai daqui? São dezesseis anos enrolando o Pará. Se argumentos lógicos não são possíveis, os aparentemente não-lógicos são possíveis. Se você compra uma tonelada de bauxita e paga 50, e se faz uma tonelada de alumínio e vende a 300; se transforma em esquadria, porta; se transforma cobre em fio, os valores são estupidamente maiores. Se eu sei isso, por que a Vale não faz? Porque dentro da Vale se mantém o mesmo espírito colonizador dos portugueses que aqui chegaram, e dos ingleses, no século XIX”.

Para ele, portanto, “é evidente que a Vale deve me considerar uma ameaça”.

E pergunta: “Qual o problema em trazer a Votorantim para cá, para produzir roda?”

Almir chegou a saudar a ascensão de um jovem, Roger Agnelli, ao comando da Vale, devido à expectativa de que representasse “o capitalismo moderno e não o selvagem”.

Hoje, porém, descrê até da construção da Alpa, a siderúrgica prometida pela Vale, em Marabá.

“A Vale vai usar a licença da Secretaria de Meio Ambiente ou do Ibama como desculpa para não implantar a aciaria” – prevê – “Na última conversa que tive com a Vale eles me perguntaram: qual siderúrgica no interior?”

Reconheceu que de pouco adiantou o que foi realizado no seu governo, para mudar a postura dos “colonizadores mais atuais” do Pará – a Vale entre eles, a representar os interesses da “Europa e do Oriente”.

Lembrou o potencial energético do estado, para salientar que o Pará possui todas as condições para verticalizar a produção mineral.

“Temos tudo”, disse Almir. Daí, a conclusão: “Ou falta inteligência para botar tudo junto, ou sobra sacanagem da Vale”.

Aliás, conforme afirmaria mais adiante, é a Vale quem está “financiando” a divisão do Pará.

Jatene “chorava” para não ser candidato

Médico e político tarimbado, Almir salienta que aprendeu “a ver o comportamento das pessoas”.

Por isso, a estranheza diante do “corpo mole” de Jatene, em 2006, e da insistência do mesmíssimo Jatene, agora, em sagrar-se o candidato tucano ao Palácio dos Despachos.

Sustenta que, em 2006, Jatene “não aceitava a reeleição e chorava para dizer que não queria ser candidato novamente”.

Compositor e cantor, Jatene teria chegado a afirmar que “entre o Almirzão e o Almirzinho (músico, filho de Almir) ele preferia ser cantor e que havia um desvio na vida dele, a política, que ele não sabia como administrar”.

Além disso, Jatene teria apresentado mais dois motivos para não se candidatar: “Ele disse que era contra a reeleição, mas que ainda que quisesse a reeleição, a mulher se divorciaria dele. Às vezes sob lágrimas, eram esses os argumentos que mais repetidamente colocava”.

Do ano passado para cá, porém, a versão de Jatene mudou: “Agora, ele diz que abriu mão da candidatura” – em favor de Almir.

E, novamente, a motivação de Jatene estaria nas relações que mantém com a Vale.

“Quando o governo terminou, o Jatene passou a trabalhar para a Vale – todo mundo diz isso”, revela o tucanão.

E acrescentou, mais adiante, com ironia: “Ele passou a trabalhar no ZEE (Zoneamento Econômico-Ecológico), que começou no meu governo. Coincidentemente, foi contratado por uma empresa e agora mudou inteiramente de atitude. Ele não abriu mão de nada; ele que chorou para que eu fosse até chefe de condomínio!…”

Almir confirmou que a Vale “financiou a maior parte da campanha de Jatene”, em 2002.

No entanto, garantiu desconhecer detalhes desse financiamento, apesar de, à época, governar o estado e ser o principal cabo eleitoral de Jatene.

Tal desconhecimento decorreria das “divisões” (a setorização) das campanhas e por entender que o dirigente não deve saber quem são os financiadores, “para não influenciar decisões posteriores” – pelo menos foi isso que ele alegou…

Aliás, ele disse que nem se recorda, ao certo, de quem foi o responsável pela arrecadação.

Tucano critica polarização e garante que não usou a máquina

Apesar do expressivo financiamento da Vale, Almir acentua que foi ele, na verdade, a eleger o ex-amigo.

“Eu banquei a campanha dele: chamei prefeitos e disse que ia ser o Jatene. Viajei o estado inteiro, pedindo votos para ele”, recorda.

Nega, no entanto, que tenha havido uso da máquina naquela eleição.

“Nunca houve isso. O que usamos foi o governo. O que o Lula está fazendo com a Dilma é muito pior do que eu fiz. Tinha uma obra em Tucumã, por exemplo, e eu ia com ele, para inaugurar a obra. E, à noite, fazia comício. Isso é proibido?”, indaga.

Almir pretende continuar a fazer política, mas, não estaria “numa atitude de querer o governo agora”.

Quer é criar “uma consciência, no estado, da histórica colonização que sofreu”.

Critica a maneira como as pessoas pensam a política paraense, sempre polarizada: Jarbas e Alacid; Jatene e Almir…

E avisa: “eu não vou nessa”.

Afirma que não pretende bater chapa com Jatene, na convenção estadual do PSDB, em meados deste ano.

E considera que o importante é criar uma terceira via, no próximo pleito, para superar a polarização entre o PT e o PSDB.

Antes dessa entrevista, no dia 29, ele já havia conversado com lideranças de cinco partidos – PR, PRP, PV, PPS e DEM – na tentativa de articular essa terceira via.

Até meados deste mês, deve conversar com cinco legendas nanicas e, posteriormente, com o PMDB.

Mas, a grande surpresa veio quando perguntamos a Almir acerca da possibilidade de negociação com o cacique do PMDB, Jader Barbalho, considerado arquiinimigo do tucanão.

Almir, vejam só, criticou o maniqueísmo da política paraense. E apesar de ter sido no seu governo – e isso lhe foi lembrado – que Jader foi transformado no grande “anhanga” estadual…

“Temos de terminar com essa história de bem e mal” – afirmou – “Quem é do PT acha que a Ana Júlia é o bem e, o Jatene, o mal. E assim, vice-versa. Isso é uma forma atrasada de ver a política no Pará”.

Disse, também, que a sua discordância com Jader ocorreu há duas décadas, aquando da fundação do PSDB – que nasceu de uma dissidência do PMDB.

E declarou: “Eu quero fazer nascer, no Pará, a percepção de que existem outros fatores em jogo, que não apenas o bem e o mal”.

Almir, em suma, parece acreditar que há mais dificuldade de composição entre Jader e Jatene do que entre ele e Jader.

Segundo disse, Jader e Jatene podem até fazer uma dobradinha, mas, “é mal para os dois”.

Entre outras razões, porque Jatene não teria cumprido “uma série de compromissos” com Jader.

E ainda lhe “tirou” uma série de lideranças peemedebistas, como os deputados estaduais Bira Barbosa e Ana Cunha; o prefeito de Castanhal, Hélio Leite, e o ex-prefeito daquele município, Paulo Titan.

De quebra, ainda tentou ganhar a deputada Elcione Barbalho, ex-mulher de Jader, através da nomeação dela para um cargo em Brasília.

“Qual o deputado, o senador, o prefeito que tirei do PMDB?” – perguntou Almir.

E acrescentou: “O meu trabalho foi não deixar o Jader como líder principal do Pará”.

Contraditoriamente, porém, acredita que Jader “tem bastante experiência para saber que sou muito pior para ele do que o Jatene. O Jatene é primário em fazer política, e o Jader, pós-graduado”.

De qualquer forma, aposta que a raposa peemedebista poderá, sim, embarcar nessa canoa:

-Não estou propondo uma aliança comigo, mas, com uma idéia nova. E o Jader é bastante inteligente para saber quando uma idéia nova vale à pena. Eu ainda acredito no vereador Jader, em quem votei.

Aliás, Almir confessa ter votado em Jader não apenas para vereador, mas, também, para deputado estadual e federal.

E assegura: “Não tenho arrependimento de ter votado”.

Exigências “exorbitantes” no acordão de Jatene e Couto

Apesar da decisão de deixar o PSDB, Almir garante que não vai se filiar a outra legenda – apesar de já ter recebido convites de pelo menos dois partidos.

Também não parece magoado com o senador Mário Couto, apesar de ter motivos de sobra para isso.

No angu de caroço em que se transformou o PSDB paraense, no ano passado, Couto, com o apoio de Almir, travou uma acirrada disputa com Simão Jatene, para representar os tucanos na próxima eleição ao Governo.

Lá pelas tantas, abandonou o páreo, para apoiar a candidatura de Almir.

Mas, ao fim e ao cabo, acabou negociando o apoio a Simão Jatene.

“A sensação que tenho é de que errei o caminho” – diz Almir, acerca de Mário Couto – “Eu julgava que não haveria negociação com o Jatene”.

Considera, aliás, “exorbitantes” as condições impostas pelo senador, para apoiar Jatene.

Uma delas – a única a que Almir se referiu abertamente – é o apoio de Jatene à candidatura dele, Mário Couto, ao Governo do Estado, em 2014.

Almir disse não considerar traição, mas “uma manobra”, o drible que levou dos correligionários, aquando do anúncio da escolha de Jatene como pré-candidato do PSDB.

Na época, o presidente nacional do partido, senador Sérgio Guerra, garantiu ter ordenado que a reunião de lançamento da pré-candidatura de Jatene – marcada para um sábado, na Assembléia Legislativa – não acontecesse.

O próprio senador Flexa Ribeiro, presidente estadual do PSDB, também disse a Almir que ela não aconteceria.

Mas, após uma reunião com Mário Couto, o tucanato local resolveu realizar o encontro – que foi apenas transferido para o dia seguinte, um domingo.

Por essas e por outras, ficou-lhe a certeza de que, no fim das contas, apostou no bicho errado: “Apostei. E o diabo é que apostei muitas fichas, porque só coloquei meu nome disponível quando o Mário (Couto) disse que não tinha conversa com Jatene. As qualificações que o Mário dava ao Jatene são de arrepiar. É só perguntar para o Mário”.

Discriminação contra os idosos

Para Almir, o que pesou, mesmo, para a sua exclusão da disputa foi “a discriminação contra os idosos”.

E isso, sim, parece deixá-lo tiririca.

“Você acha que o Papa é débil mental, que o Fernando Henrique é gagá? E o Sílvio Santos? Por que, então, não posso chegar aos 77 anos lúcido, estudando?”, indaga.

Almir diz que tem 120 projetos para o Pará, “quarenta deles rigorosamente novos”.

E completa: “A idade, para mim, é uma coisa quase imbecil. O que tem de ser visto é o nível ou não de senilidade”.

De igual forma, considera “uma desculpa esfarrapada, sem nexo”, a afirmação de que seu tempo – não o cronológico, mas, o histórico – já passou.

“Quantos anos tinha Mao Tse Tung quando comandou a revolução chinesa?”, pergunta.

Nem Serra, nem Jatene: melhor é conversar com o taxista

Hoje, Almir considera o ex-amigo Jatene “um atraso para o Pará”.

E não apenas pelas relações dele com a Vale, mas, pela maneira de encarar o mundo. E pondera:

-Um político que é político ou mantém a sua opinião, ou não é um líder. Um cara que faz pesquisa para falar o que o povo quer, não é líder, é liderado.

Acredita, no entanto, que a atual governadora, Ana Júlia Carepa, “é muito pior” que Jatene.

Até pelos “defeitos de DNA” do partido dela, o PT: “mente repetidamente e acredita na mentira; só eles sabem a verdade e são honestos; só eles entendem de trabalhador, natureza… É uma coisa sectária, terrível”.

Garante que não sente raiva de Jatene. No entanto, não tem saudades de conversar com ele – “mas, com o taxista da esquina”.

Acredita que o PSDB “foi trouxa”, ao escolher o seu pré-candidato antes das demais legendas.

E avalia que “os desvios de princípios do PSDB do Pará são muito graves, para apoiar quem os representa”.

Daí que não votará em Jatene.

Aliás, não votará nem no tucano José Serra, para a Presidência da República.

Surpreendentemente, seu candidato será ou Marina Silva, do PV, ou Dilma Rousseff, do PT.

Sobre Jatene, lembra que ele foi chamado, em 2007, para prestar consultoria na área energética, no estado de São Paulo, que é governado por José Serra. E pergunta: “O que é que o Jatene entende de energia, e de São Paulo, para ter aceitado isso?”

Sobre José Serra, pensa que ele “não se interessa pelo destino dos estados. Só pensa nele. E, se der errado a candidatura dele, tenta novamente o Governo de São Paulo. É o mundo girando ao redor dele. E esse egocentrismo é conhecido desde a época do Mário Covas”.

Almir lembrou que, há pelos menos dez anos, defende a “despaulistização” do PSDB.

E recorda a sucessão de candidatos tucanos à Presidência da República, todos oriundos de São Paulo.

“O primeiro candidato foi o Covas. Depois, veio o Fernando Henrique Cardoso. Depois, o Serra. Depois, o Geraldo Alckmin. E agora, novamente o Serra?”, espanta-se.

Para quebrar esse ciclo, Almir defendia a candidatura de Aécio Neves, governador de Minas Gerais.

Pena que não deu.

Postado por Ana Célia Pinheiro às 06:44 0 comentários

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