TERRA DO MEIO – DIA DAS MÃES

DIAS DAS MÃES – TERRA DO MEIO

Almoçando de frente à natureza!

DIA DAS MÃES

O TERRA DO MEIO VOLTOU!
www.terradomeio.com.br

Atendendo a insistentes apelos do distinto público o Terra do Meio – Restaurante Rural voltou.
Essa pavulagem de distinto público e insistentes apelos tem cheiro de circo do interior. De antigamente.

E era ótimo.

Certa vez lá em Altamira apareceu um circo. Acho até que foi o primeiro.
Grã Circo Cartagena. Aos trancos e barrancos, estava vindo de Santarém, onde, dizem, nem chegou a se exibir. Veio já nas últimas. Terceira classe do navio gaiola União, dos Sinape. SNAPP – Serviço de Navegação da Amazônia e Administração do Porto do Pará. Também nunca soube porque se usava “os” Sinape, assim, mesmo, no plural.
Era muita gente. Pelo menos umas vinte pessoas. Todos falando, diz-que, espanhol. Depois viemos a saber que só o palhaço era boliviano. E analfabeto.

O Eduardo Besouro sacou na hora quando viu Gran grafado com til. A curiosidade maior da turma era saber como era ser analfabeto em língua estrangeira.

O circo, apesar dos tropeços iniciais para construir as arquibancadas, pois não havia tábua em Altamira, aliás, nem serraria, foi um sucesso.

Ficaram hospedados na pensão da D. Querida, com o aval do prefeito Zé Rego, que caiu de amores por uma espanholita gitana de Salamanca, que lia mão, botava cartas, era bilheteira, trapezista, ajudante do mágico, e, ainda, a Izabel Cristina em um arremedo de drama apocopado e meloso, O direito de nascer.

No trapézio usava um maiô de duas peças que era uma perdição. Não, ainda, um biquíni, mas perna e barriga de fora, eram demais para Altamira. Nem a Esther Williams, em Escola de Sereias, no cinema do seu Meirelles, ousara tanto.
E a sensualidade do sotaque castelhano misturado com o italiano do Bexiga onde nascera era irresistível. Chamava-se Dolores Sierra. Pobre Zé Rego.

Pois bem, às vésperas da saída do barco Rouxinol, que os levaria à Gurupá, ou Breves, já à tripa forra, resolveram ficar mais um tempo.

Era Domingo de Ramos, quando anunciaram, aí, sim, “atendendo a insistentes apelos do distinto público”, que iriam permanecer por mais uma semana. A Semana Santa. Levariam a dramatização da Paixão e Morte do Nosso Senhor Jesus Cristo.
Sucesso total. Até o padre Guilherme fez reclame na pregação. Tiveram que fazer três sessões por dia.

Apenas dois incidentes insidiosos empanaram o brilho total da estada do Grã Circo Cartagena em Altamira. Aliás, parece que todo incidente tem a mania de ser insidioso.

O primeiro, até era previsível, quando recrutaram, no laço, o Pedro da Natalina para o papel de Cristo.

Forte o bastante ele era para agüentar a crucifixão três vezes por dia. A única exigência era que, de quando em quando, o mantivessem abastecido de pelo menos um gole de cachaça.
Galho fraco. O palhaço boliviano, analfabeto em castelhano e dono da companhia, providenciou uma cuia de alentado tamanho, cheia de cachaça e uma esponja na ponta de uma lança. Quando, conforme a história, Cristo dissesse, “tenho sede”, o soldado carrasco embebia a esponja na cana, lavava-lhe`a boca e exclamava “toma fel”. O público se debulhava em lágrimas.

Assim foi feito e assim deu certo.

No terceiro dia, na terceira sessão, acabou a cachaça. Puseram água. O Pedro da Natalina morto de cansaço e muito bêbado clamou conforme o script : tenho sede. E o soldado, rindo de escárnio: toma fel!

O Pedro/Cristo sorveu um gole da esponja, cuspiu com estardalhaço e bradou: como é, porra, acabou a cachaça?

Eu estava perto e ouvi. Pouca gente ouviu.
Aquele povo estava mundiado, afinal, era a primeira vez que viam a encenação do Drama da Paixão. Saiam cabisbaixo, os olhos ainda cheios dágua, e fervendo de ódio latente dos judeus de crucificaram Nosso Senhor Jesus Cristo.

O segundo incidente aconteceu no dia seguinte, sábado de Aleluia, malhação do Judas no coreto da praça da matriz.

O Pedro da Natalina foi enganado, não pagaram o cachê prometido pela atuação na peça, onde foi o ator principal. Passou a noite na zona. Bebeu e não pagou. Brigou, apanhou, caiu de cara na piçarra e, assim, todo lanhado, compareceu à malhação, já depois de lido o indefectível testamento, no fim da programação.

Subiu cambaleante no coreto e, sem quê nem mais, convocou o povo para dar uma surra no judeu boliviano filho da puta que matou Nosso Senhor.

Sem questionar, como em um vôo orquestrado de enxame de vespas, zumbis ensandecidos, rumaram para a pensão da Dona Querida. Fazer o quê, ninguém sabe até hoje explicar.
Zé Rego, avisado que foi, pelo Bicôca, correu, ainda descalço, vestindo no caminho a camisa do pijama. Quando dobrou a esquina da Natividade, a três ou quatro casas da pensão, estancou com a boca aberta, sem emitir o som do discurso que vinha imaginando para conter a turba.

A cena era absolutamente insólita. À porta da pensão, no meio da calçada estreita e alta, estava Dolores Sierra, toda paramentada de lamê azul celeste, exatamente como na peça que representara na véspera. Mater Dolorosa. Fitava o céu, serena, sem demonstrar temor ou gesto mais brusco. Aquele povo todo de repente estancou. Trinta, talvez, cinqüenta pessoas. Homens, mulheres, crianças. Até o Zé Rego, usufrutuário oficial dos seus favores mais recônditos, quedou-se pasmo.

Ouviu-se a voz da Virgem recitando a fala que seria antes do Pedro da Natalina e que ele não dissera:

-Pai perdoai-os. Eles não sabem o que fazem.

Dava para ouvir o silêncio. Alguns persignaram-se e se ajoelharam.

Dolores Sierra calmamente, com suas vestes talares azul celeste que lhe encobria os pés, calmamente, como se flutuasse ao rés do chão, entrou na pensão e sumiu na penumbra do corredor escuro que ia dar no quintal.

Ninguém a seguiu. Nem dona Querida que estava na janela e assistiu a tudo boquiaberta.

As pessoas aos poucos foram se dispersando. Sem comentários ou gracejos.

Dolores atravessou o corredor, devagar e, sem pressa também foi despindo a fantasia de Nossa Senhora, de tal maneira que quando saiu à luminosidade forte do quintal ao meio dia, já estava de novo com a roupa de cartomante.

Na rua de trás, onde ia dar o quintal da pensão, já estava toda a trupe de saltimbancos aboletada na carroceria do caminhão do Maciel, que os levaria ao Porto de Vitória.

Sem pressa e sem ajuda, Dolores subiu à boléia. Sem pressa também o caminhão seguiu rumo à estrada de terra batida, até aquela data, única estrada de Altamira.

Zé Rego, depois que o povo saiu, aproximou-se de dona Querida que permanecia em silêncio debruçada na janela, e anuiu com a cabeça à guisa de cumprimento.

Dona querida apenas disse: foram embora.
Por favor, ponha na minha conta, foi a resposta.

***

Pois é, essa mania de escrever só me dá prejuízo. Tudo isso era pra dizer que o Terra do Meio está funcionando e eu espero todo mundo de volta!

Domingo, dia 8, é Dia das Mães. Sábado também. Otimista incorrigível, acredito em casa cheia de amigos. É bom fazer reserva.
Dê só uma olhada.

www.terradomeio.com.br

Obrigado,

André Costa Nunes
fone – 3277 2975

Terra do Meio – Flores de Abril
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Xipaia... o último dos guerreiros!
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