Tia Bolota!

“Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidade assombrosas, somos eu e você, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos…”

(…em “Deus, um delírio”, de Richard Dawkins, 2007, Cia as Letras, pág. 21)

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Você ao nascer é algo que já deu certo!

Pense. Começe com seus pais. Eles, primeiro, nasceram, cresceram. Poderiam ter morrido, acidentado e ficado inférteis, nunca terem se encontrado, namorado e transado (acrescente aí todas as outras possíveis variáveis).

Estamos na transa. De primeira? De segunda? De trigêsima? Na centésima, não importa, pois o que importa é que, também por aproximadamente 18% de chance de dar certo, um espermatozóide dele e um óvulo dela, este cerca de 80 mil vezes maior que aquele, tendo este ter que, inclusive, usar uma arma química para conseguir penetrá-lo (até neste momento as variáveis para isto não dar certo são enormes!), uniram-se num ambiente tão enorme, acidentado e inóspito para eles, que é como se alguém saísse da África do Sul, rumo ao Brasil, e outra pessoa, do Ceará, nadando, sem prévia rota, e se encontrassem no meio do Atlântico!

Lembre, antes de continuarmos, que após esta união, deverá ocorrer, sem nada que possa prejudicar a sequência, a divisão celular e, ainda, acontecer  a nidação, caso contrário, você seria um bode.

Não se esqueça da gestação. Pense na gestação de uma mulher hoje, há trinta anos, há 100 anos, há 1.000 anos, há 5.000 anos, há 20.000 anos, há 50.000 anos!

Some todos os riscos, dos atuais até a época dos tigres-dente-de-sabre, por exemplo. Coloque uma era glacial no meio. Por sinal, coloque várias eras glaciais, vulcânicas, uns meteoros dando trombadas gigantescas no globo. Pense que, em vários momentos, tudo estava perdido, por se perder, é verdade. A vida, qualquer uma, já ficou  reduzida a quase nada, diversas vezes.

Acrescente muito mais. Bem mais. Guerras, genocídios, doenças como a peste bubônica. Santa Inquisição. Gengis Klan à Hitler. Alexandre, o Grande, à Xerxes.

Ah, e não se esqueça da “hoje não, estou com dor-de-cabeça” e do “pô, amor, num funcionou!”. ;)

Pois bem. Vá subindo ou descendo. Pai, mãe, dois avós paternos, dois avós maternos, quatro bisavós paternos, quatro bisavós maternos, oito tataravós paternos, oito tataravós maternos… e por aí vai, numa progressão absurda.

Alguém já fez os cálculos (é claro que com certo cuidado, pois há – e muito – incesto pelo meio, o que equilibra a conta atual de gente por aqui) : sempre somando, na época de Shakespeare, você terá não menos de 16.384 ancestrais trocando com ardor material genético de uma maneira que, com o tempo e milagrosamente, viria a resultar você (pág. 403, “Breve história de quase tudo”  – Bill Bryson – Ed. Companhia das Letras).

Continuando a matemática, vinte gerações pra trás, o número de pessoas trepando em seu favor, só para você nascer, chega a bagatela de 1.048.576. Vinte e cinco gerações,33.554.432.

Isto mesmo! Trinta e três milhões, quinhentos e ciquenta e quatro mil, quatrocentos e trinta e dois !!!

Sem esquecer, meu caro sortudo, que estamos falando apenas de pais, pais dos pais, numa sequência que chega até você e, ainda, de todas as variáveis para isto dar certo, conforme comentei antes !!!

É bom lembrar, também, que você, individualmente, começa com uma única célula. Esta se divide em duas, que se divide em quatro e por aí vai… em apenas 47 duplicações você é algo em torno de 10.000.000.000.000.000 (dez mil trilhões) de células.

E ainda que, todas elas, sem exceção, são provenientes de uma, uma única massa química ancestral, que, por motivos que o homem ainda não sabe, resolveu se multiplicar e gerar descendentes (Big Birth). Numa cadeia de probabilidades que, na verdade, era para não dar certo. Aliás, era para você nem exisitir. Isto tudo há tempos, mas tão antigo que apenas falar sobre ele não dá condições mentais para realmente perceber o quanto que significa.

E mais. Se colocarmos no bojo argumentativo a descendência, bem como, o fato de que somos, todos e tudo, sem exceções, formados de elementos químicos, como carbono, hidrogênio, oxigênio, zinco etc, provenientes de núcleos estrelares, desde tempos imemoriais, e ainda que, depois da morte tais elementos químicos, todos sem exceções, irão novamente voltar à natureza e, tempos depois, ou amanhã, ou agora, de alguma forma, constituir outra coisa, outro ser, outra estrutura, viva ou inanimada, conseguimos entender que somos especiais, na medida da complexidade que a vida, bem como na medida de nossa  trivialidade.

Por fim, ainda há o pensamento, as idéias, os fatos que nos marcaram e que fizemos marcar nas pessoas que conhecemos, e até mesmo nas que não conhecemos em vida, aí então, meu amigo, conclui-se que somos, realmente, infinitos, eternos, para sempre.

És ou não um cara de sorte?

Ps.: Para minha tia Nazaré, minha madrinha, que lembrarei com saudade, mas nunca, jamais, em momento algum com tristeza, de sua vida.

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Sobre Lafayette

Xipaia... o último dos guerreiros!
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Uma resposta para Tia Bolota!

  1. Maria Cristine Lemanski disse:

    Amei tudo que lí,um lindo texto que ao terminar deixa nosso coraçao mais ameno.Ela foi tudo,umaa grande mulher.Uma mulher maravilhosa,uma grande amiga uma tia amorosa.Um anjo que escreveu uma linda historia de amor e de vida.Hoje esta no céu fazendo tudo o que gosta para seus novos companheiros os anjos de nosso amigo maior DEUS.

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