QUANDO ADVOGUEI PARA O DR. ALMIR GABRIEL

Foto: Guilherme Lemanski

Foto: Guilherme Lemanski

Eleições de 1998. Estava matando cachorro no grito. Recém saído do escritório onde trabalhava, aluguei uma salinha (“inha” mesmo, lá na Rua Diogo Móia). Pagava o aluguel tratando de umas questões judiciais do próprio locador. Cliente mesmo, quando aparecia, era pingado e alguns ainda me davam cano.

Eis que o papai (Andre Costa Nunes) arrumou com o Dr. Paulo Klautau (acho que foi com ele e/ou com o Italo Macola) um serviço: “Ir para Viseu e arredores, trabalhar como advogado eleitoral do PSDB no 2º Turno das Eleições para Governador”.

Topei no ato! 28 anos e nunca tinha exercido a advocacia eleitoral, mas minhas experiências como mesário e presidente de mesa (fui algumas vezes), davam-me o conforto de encarar.

Não lembrava da região. Só sabia ir até Bragança.

O Dr. Almir tentava a sua reeleição. O adversário-mor a ser batido era o Jader Barbalho. A região, diziam, era deste último. Ninguém o vencia por lá!

O “briefing” foi: “Olha, o Dr. Almir ganhou no 1º Turno lá, mas foi pouco para o que esperávamos. Eles agiram forte. Tens que reverter!”

Missão dada… fui!

A PA-242 (hoje, a federalizada BR-308), de Bragança até Viseu era quase uma aventura a ser trilhada de Jipe 4×4. O Dr. Almir, no 1º mandato, tinha arrumado alguma coisa, mas as chuvas e o solo arenoso e cheio de furos, nascentes, etc, castigavam a estrada. Lembro que a última ponte, de madeira, antes de chegar em Viseu tinha o singelo apelido de: “Ponte da Morte”. Na ida, percebi que os postes de energia elétrica já estavam sendo colocados, mas ainda estavam longe da cidade.

A Prefeita de Viseu era a Dra. Astrid e apoiava a candidatura do Dr. Almir.

Ps.: Ao conhecer a prefeita e a política da Dra. Astrid, fiquei diante – percebi depois – daqueles fatos e casos que fazem a História. Como se diz: “Vi a Dona História passar na minha porta e a cumprimentei”.

Primeiro, ela era querida em Viseu, cuja sede ainda era (ou ainda é?) uma cidade bem interiorana, pacata e carola, muito carola. Astrid vivia uma união homoafetiva com a Eulina e ambas, realmente, trabalhavam muito por aquele povo carola, como disse.

Dá para escrever muito mais sobre isto, mas fico com dois fatos que estão gravados na mente:

1) Astrid, ao lado da Eulina, em cima de uma carroceria de caminhão, fazendo as vezes de um palanque de comício, tendo ao microfone uma senhorinha, crente toda, chefa do “Sangue de Jesus do Divino Espírito Santo de Deus Todo o Poderoso”, enfim, a representante cristã da cidade (acho que era evangélica, devido o cabelo comprido, não pintado, camisa gola-alta e saia até os tornozelos), defendendo-a, e, de quebra, defendendo a união com a Eulina – dizia: “Isto não tem nada a ver, o que interessa é que elas lutam pelo município e tal e tal”.

2) Apuração correndo do Ginásio da cidade, que naquele tempo ainda era voto manual, depositados em Urnas, e quando olho para a arquibancada, lá está a Astrid sentada, com a Eulina sentada no degrau abaixo, encostada nela, como duas pessoas enamoradas.

Alguns anos depois, estes e outros fatos geraram três impugnações eleitorais à candidatura da Eulina, na época Deputada, à Prefeitura de Viseu nas eleições de 2004. O Juiz Eleitoral de Viseu, Dr. Vanderley, hoje titular do 6º Juizado Especial Cível de Belém, acatou três pedidos de impugnação baseados na lei eleitoral que proíbe parentes em até segundo grau dos ocupantes de cargos executivos de concorrer a esses mesmos cargos. Astrid era, ainda, a Prefeita, reeleita.

Nestas Eleições, o cenário de Viseu tinha mudado (ou se revelado?). A candidatura da Eulina foi marcada por ataques homofóbicos de toda ordem, conforme constam nos noticiários de comunicação da época.

Esta decisão deve ter sido uma das primeiras (se não, foi uma das mais relevantes) em que a Justiça declarou não só direitos, mas DEVERES decorrentes de união homossexual. Se contrária à Eulina, depois, a decisão (confirmada inclusive pelo TST) se revelou uma das fundamentais para que o STF, ao julgar a Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI nº 4277 e a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – ADPF nº 132, reconhecesse a união estável para casais do mesmo sexo, dando, também, interpretação conforme a Constituição Federal para excluir qualquer conclusão no Brasil, com base no Art. 1.723 do Código Civil, que não reconheça a união entre pessoas do mesmo sexo como entidade familiar.

Vão-se os anéis, ficam os dedos.

No 1º Turno, em Viseu, o Dr. Almir tinha recebido 6.041 votos. Jader, 4.876. Era pouco. O PSDB pensava que seria mais. Em Augusto Correa, ali do lado, tinha sido 4.139 contra 4.942 ao Jader e Bragança, a “capital política” da região, em que pese o Dr. Almir ter tido 2 mil votos a mais que Jader, este estava crescendo rápido (tanto que reverteu e venceu no 2º Turno com mais de 200 votos de diferença).

Uma correria. Fiz questão de treinar os fiscais, os delegados e os apoiadores do Partido, e a Astrid (rs). Expliquei a lei, os seus poderes, estudamos cartilhas, marquei as Seções “complicadas”, cerquei o adversário (conheci algo que não imaginava ter para aquelas bandas do Pará: UMA SERRA! A Serra do Piriá. Googlem, por favor!).

Na cidade tinham dois hotéis: Um, era o QG do PSDB e onde deveria ficar; O outro, era o QG do PMDB. Fiquei neste! 😀

Soube, depois, que a Astrid ligou para o Comitê Central, em Belém, para perguntar se tinham confiança em mim, pois havia decidido me hospedar no hotel do adversário. Ainda bem que confiavam.

Ps.: Nada melhor que ficar no quarto ao lado do dos inimigos. Ainda mais em hotel de interior, que se conta até quantas tosses o cidadão do lado dá dormindo! O advogado do PMDB, um conhecido meu do curso na UFPA, suava… 🙂

No 2º Turno, em Viseu, o Dr. Almir ganhou o Jader por 9.377 a 4.227. Mais de 5.000 votos de diferença.

Voltei para Belém. Prestei conta dos gastos. Uns cinco dias depois me pagaram: R$ 1.000,00.

O resto da História, vocês sabem.

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Xipaia... o último dos guerreiros!
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