O CONSELHO DO PROFESSOR REINALDO

Um dos meus causos com o Professor Reinaldo e um dos conselhos que mudou meu rumo.

Era o Colégio Moderno, 88 ou 89, não lembro. Ele, coordenador do Convênio. Eu, aluno perturbado, “pero no mucho”.

Queria ser Biólogo Geneticista – fruto de um livro que o Dr. Bellesi tinha me dado – fazia, então Ciências Biológicas, o temido CB, com sua Química e Biologia pesadas.

Nunca fui de estudar mais do que o suficiente para não reprovar. Em testes ou provas, fazia o mais rápido possível – até porque o volei ou o futsal já estava rolando, lá em baixo, na quadra de cimento.

A este “método” o Professor Meirelles, de Matemática, chamava de “Calango Suicida” que é, por sua vez, outra história.

Bem.

Caí na temida “recuperação”, em Português e Espanhol. Precisava tirar 3,5 em Português e 9 em Espanhol. Inverti: tirei 9 em Português. 3 em Espanhol. Reprovei.

Sim, reprovei no CB, mesmo passando direto em Química e fazendo Estequiometria de cabeça, quase sem precisar usar o borrão (quem lembra ou sabe o que é isto, deve sacar a sinuca que me meti).

Um Deus-nos-acuda, pois os professores de Química e Biologia, e os demais, sabiam que passaria no Vestibular da UFPA.

Aí entra o Professor Reinaldo.

Ele me chamou de lado e disse:

-Lafa, tem um jeito. Vou chamar o fulano (o professo de Espanhol que não merece ser citado, aqui), mais a Isaura e a Guilhermina que te adoram – elas eram coordenadoras respeitadas no Moderno – e tu, todos lá na minha sala.

Não lembro ao certo, mas, parece que naquela época, o Professor poderia atrasar o envio ao MEC ou esperar o aluno fazer o Vestibular e, passando, aprová-lo ou ministrar nova prova, era algo assim.

O fulano disse: NÃO! Um não seco e de nada adiantaram os argumentos do Reinaldo, Isaura e Guilhermina.

Tudo dependia dele, disse-me o Reinaldo, puto com o fulano, que já havia saído da sala.

Engoli seco e resmunguei, saindo também: -Se pegar ele lá fora, vou comer na porrada.

Dei uns dois passos e o Professor Reinaldo gritou:

-Volta aqui!

Continuei.

Ele repetiu:

-Volta aqui, porra!

Não sei se ele manteve esta característica, mas, quem o conheceu naquela época sabe que o Reinaldo tinha uma forma de olhar, quando queria, que atravessava a gente.

Ele tinha os olhos claros, abaixava um pouco a cabeça, descia as sobrancelhas e te mirava. Nooossa, você poderia ser o aluno mais desguiado, na hora, tratava de se guiar.

-Entra aqui e senta! Sentei.

E disse, mais ou menos assim, dando-me uma senhora mijada, como se dizia antigamente (ainda se diz?):

-Olha aqui, Lafayette, tu não és um perdido, não és vagabundo, não és sem pai e nem mãe, tens uma família ótima, és atleta de seleção do colégio, do Remo e do Pará, então, porra, está na hora de parares com essas tuas besteiras. Tens 17 e logo vais fazer 18 anos, tens a chance de poucos de estudar, aproveita. Agora, levanta e só quero te ver aqui ano que vem!

E me deu um abraço, que naquela época não era coisa que fazia – quando muito, batia uns tapinhas no nosso ombro.

No outro ano, tomei rumo.

Valeu Professor Reinaldo, vá em paz, juntamente com a sua senhôra, ao descanso eterno!

Ps.: Passados anos, décadas, acho, encontro com ele na fila do caixa do Líder. Abraços e tal, ele vira para a caixa e diz:

-Quem diria, foi meu aluno.

E, apontando para os cabelos “louros”, disse:

-Aqui embaixo, há muitos cabelos brancos dele. E rimos, todos, até a caixa.

Sobre Lafayette

Xipaia... o último dos guerreiros!
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