MINHA TIA FRÍZIA

Ao fundo, aqueles morros marcam o início da Terra do Meio

MINHA TIA FRÍZIA

A libélula pousou na minha mão. Devia estar cansada ou só curiosa, sei lá. Há 7 dias minha tia Frízia tinha se encontrado com o irremediável. A nossa única sina, como disse Suassuna. Era Junho, saindo de Altamira, estava indo, junto com meus irmãos e primo, para o Alto Rio Xingu. Para as bandas em que, em Novembro passado, as cinzas do papai foram espalhadas no vento.

***

Minha tia Frízia era demais. Demais competente na arte de viver. Olha, ela era o fute! Mulher que nunca parava. Melhor, quase nunca: parava para rezar. Na casa, tinha muitas imagens de Santos e Santas e Coração Sagrado e fotos dos queridos. Um altar, na verdade.

Casada com o Comandante Barbosa, Mar-e-Guerra, aquele que, um dia, disse: “não vim chorar nota”. Um dia conto este causo. Um grande homem!

Minha tia Frízia vinha sempre para o Círio de Nazaré. Devota. Ela só avisava: Eu vou! E, vinha mesmo. Ficava na casa da Joana ou passava uns dias no Fernando ou na casa do fulano ou na casa do sicrano e sempre ia falar com o irmão, o papai e a “Esther”, mamãe.

Ultimamente, ela estava com sérios problemas de locomoção, doenças que preocupavam… os filhos, filhas, netos e netas, sobrinhos e sobrinhas e o irmão, pois, ela mesma, nem tchum para elas!

Minha tia Frízia sempre dava um jeito.

No último Círio, ano passado, cismou que queria vir à Belém – ela morava em Niterói/RJ – e ir lá no Terra do Meio, “ver como estavam as coisas do meu irmão e rezar um tiquinho com ele”. Olha a bronca!

Todos em polvorosa!

“Mas, mamãe, a senhora está ruim”, “primos, a mamãe quer ir aí, mas, estamos com receio da emoção ser demais”, “primos, ela quer ir, mesmo, e vai!”. Veio!

Fui leva-la no Terra do Meio.

O carro do Fernando era um todo enjoado, sensores para cá, software pra lá. Me emprestou para levar a tia no Terra (meu carro é muito alto e a tia teria dificuldades para subir e descer). No caminho, o carro empacou. Sei lá, não quis mais nos levar.

Antigamente, a gente dizia logo: “ih, o carburador entupiu!”, mas, agora, tem que colocar o notebook, linkar o módulo, parametrizar, resetar etc. Coisa de nerd!

Só tinha um jeito: pegar o outro carro do Fernando. Deixei a tia e a sua escudeira (cuidadora que ela, a minha tia, cuidava) no carro, janela aberta, calor do cão! Imaginem que era umas 10 horas, na frente do Terminal Rodoviário, ali, deconfronte à Makel! Cagada claro.

Quando retornei, o auto-care-sei-lá-o-que da Renault já estava lá, para levar o carro. Fizemos o transbordo da minha tia.

Pega a cadeira de rodas. Não tem como ela ir até o outro carro nela. “Vou andando”, disse, firme!

A calçada da Makel lotou. A minha tia, lançava a perna “desligada” para frente, fazia um “requebra” com a cintura, apoiava e, com a outra perna, meio-boa, dava o passo. Curto, mas, no rumo.

E eu, “meu Deus do céu” se acontece algo aqui e ela cai, a primalhada me mata!

Por conta de algo que ela pediu à Nazica, com certeza, as pessoas não buzinavam atrás, mesmo engarrafando tudo. Desviavam, devagar.

Ela foi indo. O pessoal da calçada vibrava junto e, ela, parava e acenava. A torcida ia ao delírio. Ela me chamou no ouvido e disse, “aproveita e diz para eles que sou avó da Sophie Charlotte”. Falei e aí a galera danou a tirar fotos e aplaudir com mais força. A titia adorava e dizia: “COM MUITO ORGULHO! COM MUITO ORGULHO!”.

Em um gesto, antes de entrar no carro, como se curvasse para agradecer os aplausos – tal como se faz no teatro – deu um último aceno de mão.

Rimos muito. A minha tia era o fute, como disse.

A minha tia Frízia era uma pessoa determinada. Forte, mesmo quando a fraqueza se avizinhava. E, isto refletiu nos filhos e nas filhas e netas.

Não se metam à besta com elas!

Ou melhor, se metam, mas, saibam que, ali, cabresto de macho escroto não se cria. Sempre estará para nascer, mas, nunca nascerá!

Minha tia Frízia as inspirou mostrando, na vera, como é que se impõe diante do mundo das coisas e das gentes. Ainda mais, aqui, neste Brasil.

Teria outros contos, causos para contar para vocês, mas, por enquanto, fiquem com essa imagem, linda, dela, na escada da casa do irmão que tanto amou e que, por certo, estão em longos papos, à margem de um rio celestial!

***

Aquilo já estava ficando mais interessante. A libélula, mesmo depois de uns 30 minutos, mesmo depois de fazer quase tudo com a mão, pegar cerveja no isopor, dar uns goles de cachaça, apontar cachoeiras, árvores, aves, até balançar, ela continuava ali, pousada na minha mão direita.

Ora, bati até foto colada nela, como se vê, e nada a assustava.

Eu mirava ela de lado, ela virava aquela “cabeça olhuda” e nada.

A voadeira era equipada com um motor Yamaha de 115hp e éramos 7 pessoas, portanto, imaginem a velocidade que navegávamos e, claro, a ventania que batia sobre o dorso da minha mão, pois, também, com se vê, colocava-a até para fora do barco.

E, ela, a libélula, impávida, apoiando nas pernas, ora ajeitando-as em pequenos passos, firmes, ora, com uma das asinhas, como que acenando, levantava a ponta e anulava o empuxo do vento forte.

Sabe-se, por ver, que libélulas não param. Ou quase, não param.

A libélula era o fute!

Demorei, mas, fui percebendo e entendendo, ao poucos. Não era eu que levava a libélula.

Ela me levava pela mão. Apontando o rumo, determinada.

Depois, como se já tivesse chegado no local que queria ficar, deu-me uma beliscadinha – ou um beijo – e partiu!

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Brevidade

Já me vou
Não sei quando
Mas, já me vôo

Queria ter ido mais
Mas, já não irei mais
Não me vou

Já vou, indo
Mas, volto já
Já não posso

Volta, pois já me vôo

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Há gente, mas, há a máquina que tudo atropela

Julho de 2015

Só agora consegui ver a reportagem no “Liberal 2ª Edição”, sobre a questão do Aterro Sanitário da RMB de Belém.

Há um TAC – Termo de Ajustamento de Conduta. Há o Ministério Público do Estado, há as Prefeituras, de Belém, Ananindeua, Marituba e outras. Há o Governo do Estado do Pará.

Há um estudo e relatório de impacto ambiental (EIA RIMA) sendo descumprido… aliás, a Empresa diz que só daqui a 6 meses vai instalar a separação do lixo, se orgânico, se inorgânico, se reciclável ou não (será que o hospitalar vai no meio?).

E, há uma mata (a tal da Mata da Pirelli) virgem (não sei se é mesmo). Há uma fauna. Há igarapés. Há lençóis freáticos.

Há pobreza, muita. Coitado daquele rapaz que acha que a Empresa, dona do Aterro Sanitário, irá lhe empregar. Não entendeu, nem vão lhe explicar, que as cooperativas de catadores são lá do bairro, lá da cidade, lá longe e que, lá longe, já tem outros pobres catando…

E há o meu pai, que chego a pensar que deveria largar mão disso, dessas coisas de lutar por algo melhor para as pessoas, largar mão dessa mania, um vício, de lutar pelo bem, pela democracia, pela felicidade, sua e dos outros… bem, mas aí, não seria o meu pai e, de imediato, deixo de pensar assim, pois, daí, eu não seria seu filho.

http://g1.globo.com/pa/para/jornal-liberal-2edicao/videos/t/edicoes/v/lixo-ja-esta-sendo-depositadas-no-novo-aterro-sanitario-de-marituba/4302953/

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Mas, que diabos…

Mais uma passeata. A 2ª por estas plagas.Tarde bonita. Estas tardes que Belém e só a baia do Guajará produzem.Na caminhada, saindo do CAN, percebia-se muita gente jovem, pessoas que no fatídico 11 de Setembro, ainda estavam na inocência. Ex-garotos e ex-garotas. Agora, jovens adultos.
Bati fotos lindas! Vi famílias inteiras, de “mamando à caducando”. Todos com suas indignações nos bolsos e na ponta de língua.Tudo certo.Quando cheguei na frente da Prefeitura de Belém, aquele prédio lindo, histórico e QUE NÃO DEVERIA SER, NUNCA, SEDE DE PREFEITURA, em que pese ter sido construído para isto (aliás, deveria ser um museu, para visitação e contemplação) percebi que algo estava estranho.Por sinal, tal percepção foi até um pouco antes, já na descida da Presidente Vargas, ali deconfronte à Escadinha.
Soltaram um bomba caseira.Pensei: “Quem diabos vem pra cá com um bomba caseira?”.Seguimos.Como “atalhei” pela 15 de Novembro,adiantei-me e via as pessoas chegando e ocupando seus lugares diante do palco e as ilusões foram caindo aos poucos.Após um curto período de tentativa de se organizar uma conversa diretamente com o Prefeito, o Zenaldo Coutinho, na rua mesmo, olho a olho (QUE SERIA INÉDITO EM TODAS AS MANIFESTAÇÕES NO PAÍS), vi voar uma garrafa d’água em direção à entrada do prédio. Depois, mais outra. E, uma pedra e UM TÊNIS.Pensei: “Quem diabos joga o seu tênis na Prefeitura?”Veio a 1º bomba de efeito moral (que, aliás, de moral não tem nada, só o nome. Ela acaba com a moral!). Como de praxe, enquanto muitos correram para longe. Dei uns passos para mais perto (sempre penso: Algum amigo pode estar precisando de ajuda – é tradição minha milenar! rs).As pessoas voltaram. Muitos gritando para sentar. Eu gritei: Senta! e sentei. Só eu sentei! Quase fui pisoteado pois veio a 2ª bomba de defeito moral!Levantei. Recuei.Fui para o lado da entrada. Veio o gás de pimenta. Conhecia-o. Respirei pelo nariz, leve e pausadamente, sem pânico. Você não morre sufocado. Apenas acha que vai.Ajudei um rapaz que estava sentado, passando mal. Um moça, daquelas jovens adultas que falei, deu para ele cheirar um pano com vinagre. Cantei no ouvido dele: Respira só pelo nariz e te acalma. Ele entendeu. Ficou lá.Vi o Tanto gritando, do lado de dentro do disciplinadores (são grades móveis).Pensei: “Que diabos está fazendo o Tanto do lado de dentro?”.Ouvi ele dizendo para que se fizesse um cordão de isolamento. O próprio povo iria separar e proteger o prédio público e as pessoas que estavam lá dentro.Achei interessante.Fui para frente da entrada e já tinham umas 6 pessoas começando o cordão, braço entrelaçado com o braço do parceiro e assim por diante. Vi que tinha um senhor de idade no meio.Pensei: “Que diabos está fazendo um senhor de idade aqui?”.Fui e fiquei no lado dele para o ajudar numa eventualidade.
Não deu certo.
Tentamos fazer um duplo cordão de isolamento.
Não deu certo.Um grupo de pessoas, QUE NÃO ERA PEQUENO – está bem, em comparação ao tanto que caminhavam, sim, mas, ali, na frente da porta da Prefeitura, faziam a diferença… e fizeram mesmo! -, fizeram cagada!Uma pessoa, que portava um cômico cartaz preso em uma vassoura, jogou algo. Olhei para ele e quase voei nele. Mas, tinha o senhor do meu lado. Fiquei.Essas pessoas não queriam nada daquela Autoridade eleita. Eles queriam ser os eleitos. Os arautos de uma nova era. Os escrotões… uns babacas.No primeiro momento, os guardas que estavam no pórtico de entrada, recuaram um pouco, mas só para fecharem mais a entrada.Lá vieram mais bombas de efeito imoral e, por fim, a PM, o Choque da PM e a Cavalaria da PM (só apontaram o focinho, mas, não sei o motivo, voltaram – aliás, sei. Umas pessoas começaram a dizer que não era para tanto. Um Oficial da PM, que veio do lado de dentro da Prefeitura só fez um gesto, e ela foi simbora). A PM aliviou. Tinha recebido ordens para assim proceder.Mais gás lacrimogêneo.Saí do cordão, pois, afinal, só estava eu, o senhor e mais uns 10 gatos pingados.
Fiquei do lado do prédio da Prefeitura. Com minha cunhada e um primo.
Fui deixar no carro minha cunhada. Voltei. Já era começo da noite. Encontrei dois amigos. Ficamos por ali.Vi gente ainda protestando.
Jogando pedras no Palácio Antonio Lemos (que, se falasse, diria: “Ei seus fedelhos, logo eu, lindo e maravilhoso, um idoso de mais de 120 anos? Porque vocês não atiram pedras na ALEPA, aquele monstro de vidro, que nem combina com o Centro Histórico?”). Não empurraram um centímetro do prédio para trás, mas, em compensação, empurraram-se quilômetros para dentro da ignorância política em que vivem.No mais, foi uma boa passeata.Conseguimos desabafar. Mandar nossos recados (para quem? alguns perguntam. Respondo: Para nossos mesmos. O que já um bom começo). Tentar reencontrar nossas indignações.Quero crer que a letargia tenha sido abandonada e que os gestores públicos acordem, todos os dias, lembrando disto.Vem, vem pra rua, Belém!

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Os escolhidos

Olha
Nem todo católico é gente fina
Nem todo evangélico é homofóbico
Nem todo Padre é bacana
Nem todo Pastor é babaca

Nem todo cristão ama
Nem todo evangélico baba

Os dois são filhos de Deus

E só o Ateu é perfeito.

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As décimas da gente

Aluísia,

Tem correria
Essa vida que teima voar
É trabalho, é celular
Sangria
É a lida. É dia. É dia-a-dia
Mas, meu amor, por ti, sou
És por mim. E a mim, o amor doou
Receba esta décima, com todo amor, como Suassuna nos ensinou.
Para a Aluísia, meu ardor

Lafayette,

Recebo tua “décima” com todo amor e emoção
Sou por ti, e a ti, o amor doei
És por mim amor, o amor que conquistei
A vida corre e como corre, cabendo a nós a imaginação
Em vivê-la, plenamente, com amor e dedicação
Que me perdoe Suassuna, o meu mal aprendizado
Por tentar aqui em décima declarar ao meu amado
Como sou feliz contigo
Por te ter como marido
Meu eterno namorado.

Aluísia,

Suassuna quem dera ler
Tais décimas de amor
Pois saberia o seu valor
Saberia ver
Que para se ter
Inspiração
Basta olhar para o coração
Que habita
Toda beleza infinita
Da nossa imaginação

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Estudo sobre a mentira

“A verdade é uma só: Não existe uma só verdade.”

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