FOI UMA HONRA!

Nós vamos morrer, e isso nos torna afortunados. A maioria das pessoas nunca vai morrer, porque nunca vai nascer. As pessoas potenciais que poderiam estar no meu lugar, mas que jamais verão a luz do dia, são mais numerosas que os grãos de areia da Arábia. Certamente esses fantasmas não nascidos incluem poetas maiores que Keats, cientistas maiores que Newton. Sabemos disso porque o conjunto das pessoas possíveis permitidas pelo nosso DNA excede em muito o conjunto das pessoas reais. Apesar dessas probabilidades assombrosas, somos você e eu, com toda a nossa banalidade, que aqui estamos.

Os moralistas e os teólogos atribuem grande valor ao momento da concepção, percebendo-o como o instante em que a alma passa a existir. Se, como eu, você não se deixa impressionar por essa conversa, ainda assim deve considerar esse instante particular, nove meses antes do seu nascimento, o acontecimento mais decisivo no seu destino pessoal. É o momento em que de repente a sua consciência se torna trilhões de vezes mais palpável do que era uma fração de segundo antes. Sem dúvida, o ser embrionário que então passou a existir ainda tinha muitas barreiras a ultrapassar. A maioria dos concebidos acaba em aborto prematuro sem que a mãe nem sequer saiba que estavam em seu corpo, e temos sorte de que isso não tenha se passado conosco.

Além disso, a identidade pessoal é bem mais do que genes, como nos mostram os gêmeos idênticos (que se separam depois do momento da fertilização). Mesmo assim, o instante em que um determinado espermatozoide penetrou num determinado óvulo foi, à luz da nossa visão retrospectiva, um momento de singularidade estonteante. Foi então que as probabilidades contra você se tornar uma pessoa caíram de números astronômicos para algarismos simples.

A loteria começa antes de sermos concebidos. Os seus pais tiveram de se encontrar, e a concepção de cada um deles foi tão improvável quanto a sua. E assim por diante, o mesmo tendo acontecido com seus quatro avós e oito bisavós, até gerações que o pensamento já não consegue alcançar. Desmond Morris abre a sua autobiografia, Animal Days (1979), num tom caracteristicamente imponente:

“Foi Napoleão quem começou tudo. Se não fosse por ele, eu agora talvez não estivesse sentado aqui, escrevendo estas palavras [… ] pois foi uma de suas balas de canhão, lançada na Guerra Peninsular, que arrancou o braço de meu tataravô, James Morris, e alterou todo o curso da minha história de família.”

Morris conta que a mudança forçada da carreira de seu antepassado teve vários efeitos em cadeia que culminaram em seu próprio interesse por história natural. Mas ele realmente não precisava ter se dado a todo esse trabalho. Não há “talvez” na sua história. É claro que ele deve a existência a Napoleão. Assim como eu, assim como você. Napoleão não precisou arrancar o braço de James Morris para selar o destino do jovem Desmond, nem o seu, nem o meu. Não foi apenas Napoleão: até o camponês medieval mais humilde só teve de espirrar para influenciar algo que mudou alguma outra coisa que, depois de uma longa reação em cadeia, gerou a consequência de que um dos meus prováveis antepassados deixou de ser meu ancestral e tornou-se o de alguma outra pessoa.

Não estou falando da “teoria do caos”, nem da igualmente em voga “teoria da complexidade”, mas apenas da simples estatística da causalidade. O fio dos acontecimentos históricos de que depende a nossa existência é assustadoramente tênue.

“Quando comparado com o período de tempo para nós desconhecido, ó rei, a vida presente dos homens sobre a Terra é como o vôo de um único pardal pelo salão onde, no inverno, vos sentais com vossos capitães e ministros. Entrando por uma porta e saindo pela outra, enquanto se acha no interior, ele não é atingido pela tempestade hibernal; mas esse breve intervalo de calma termina num momento, e retorna para o inverno de onde veio, desaparecendo de vossa vista. A vida do homem é semelhante; e ignoramos completamente o que a ela se segue, ou o que aconteceu antes.” (Venerável Bede, A History of the English Church and People, 731).

Esse é outro aspecto em que somos afortunados.

O universo é mais antigo que 100 milhões de séculos. Dentro de um tempo comparável, o Sol vai inchar até se transformar num gigante vermelho que engolfará a Terra. Cada século dentre essas centenas de milhões existiu no seu tempo, ou existirá quando chegar o seu tempo, “o século presente”. É interessante que alguns físicos não gostam da ideia de um “presente em movimento”, considerando-o um fenômeno subjetivo para o qual não encontram espaço nas suas equações. Mas é um argumento subjetivo o que estou propondo. O modo como o sinto, e acho que você também o sente assim, é que o presente se move do passado para o futuro, como sob um minúsculo facho de luz, deslocando-se milímetro por milímetro ao longo de uma gigantesca régua do tempo. Tudo atrás do facho de luz está na escuridão, a escuridão do passado morto. Tudo à frente do facho de luz está na escuridão do futuro desconhecido. A probabilidade de o seu século estar sob o facho de luz é a mesma de uma moeda, atirada aleatoriamente, cair sobre uma determinada formiga que se arrasta em algum lugar ao longo da estrada de Nova York a San Francisco. Em outras palavras, é esmagadoramente provável que você esteja morto.

Apesar dessa probabilidade, você vai notar que está na realidade vivo. As pessoas por quem o facho de luz já passou, e as pessoas que o facho de luz ainda não atingiu, não estão em posição de ler um livro. Tenho igualmente a sorte de estar na posição de escrever um livro, embora talvez já não esteja quando você ler estas palavras. Na verdade, de certo modo tenho esperança de já estar morto quando você estiver lendo o livro. Não me compreenda mal. Amo a vida e espero viver ainda por muito tempo, mas qualquer autor deseja que suas obras atinjam o maior público possível. Como é provável que a população futura total ultrapasse o número de meus contemporâneos por uma grande margem, não posso deixar de me querer morto quando você contemplar estas palavras. Visto de modo jocoso, isso vem a ser nada mais que a esperança de que meu livro não saia logo de circulação. Mas o que vejo, enquanto escrevo, é que tenho a sorte de estar vivo, assim como você.

Vivemos num planeta que é quase perfeito para o nosso tipo de vida: não é demasiado quente nem demasiado frio, aquecendo-se à luz suave do Sol, irrigado de forma amena; um planeta a girar suavemente, um festival de colheitas douradas e verdejantes. Sim, e ai de nós, há desertos e favelas; há fome e miséria torturante. Mas deem uma olhada nos competidores. Comparado com a maioria dos planetas, este é o paraíso, e partes da Terra ainda são paraísos sob qualquer padrão. Qual é a probabilidade de um planeta escolhido ao acaso ter essas propriedades agradáveis? Até o cálculo mais otimista resultaria em menos de uma em um milhão.

Eis outra analogia, que já foi utilizada. Abra bem os braços num gesto expansivo para abarcar toda a evolução, desde a sua nascença na ponta dos dedos esquerdos até os dias de hoje na ponta dos dedos direitos. Em toda a extensão que passa pela sua linha mediana e segue até bem depois do ombro direito, a vida consiste apenas em bactérias. A vida multicelular e invertebrada floresce em algum lugar perto do cotovelo direito. Os dinossauros se originam no meio da sua palma direita, e são extintos perto do nó de seu último dedo.

Toda a história do “Homo sapiens” e do nosso predecessor “Homo erectus” está contida na espessura de um corte de unha. Quanto à história registrada; quanto aos sumerianos, aos babilônios, aos patriarcas judaicos, às dinastias dos faraós, às legiões de Roma, aos padres da Igreja cristã, às leis dos medas e persas que nunca mudam; quanto à Tróia e aos gregos, a Helena, Aquiles e Agamenon mortos; quanto a Napoleão e Hitler, quanto aos Beatles e a Bill Clinton, eles e todos os demais que os conheceram são soprados junto com a poeira gerada por um leve raspar de uma lixa de unha.

Seja qual for o modo de considerar a questão, apenas uma proporção extremamente pequena de criaturas tem a boa sorte de ser fossilizada. Como já disse, eu consideraria isso uma honra.

(Desvendando O Arco-íris, ciência, ilusão e encantamento – Richard Dawkins)

 

*Para mim, meus irmãos e para todos vocês.

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“Vamos acabar com isso tudo que tái, táokei?!”

“A decisão do STF ocorre em um momento no qual o Ministério Público já havia endurecido o tom contra Queiroz após ele, sua mulher e filha terem faltado a depoimentos marcados para apurar o caso. No dia 11 de janeiro a promotoria falou que os indícios levantados pelo Coaf “permitem o prosseguimento das investigações, com a realização de outras diligências de natureza sigilosa, inclusive a quebra dos sigilos bancário e fiscal””

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/17/politica/1547737389_846551.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM&fbclid=IwAR2od4iXPDHAoJz4k1ksQVJwbeG554zYU1PsAnDyCgeTmihYkQi3QQwnuGA

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BELÉM DE 403 ANOS

Belem de 403 anos

Belém acabada
Belém inacabada
Belém abandonada
Belém roubada
Belém maltratada
Belém parada

Belém encantada
Belém renovada
Belém inventada
Belém movimentada
Belém enfeitada
Belém enfeitiçada

Belém, és tantas
Belém, és pouco
Belém, és muito
Belém, és nada

Belém, és amada

Ave, Morena, morituri te salutant

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SÁBADO SUBVERSIVO NO TERRA DO MEIO

Caríssimos clientes, familiares, amigos e amigas

Neste sábado dia 10, nosso revolucionário André, estaria comemorando seus 79 anos de vida bem vividos! E, por conta disso, faremos em sua homenagem, um Sábado Subversivo no Terra do Meio.

O restaurante terá uma programação especial com voz e violão, e pratos com preços especiais, a todos aqueles que um dia tiveram contato com este velho curupira do Uriboca, vô jacaré, guerreiro xipaia, sonhador, alquimista, que apostava no poder de renovação do tempo, da natureza e do próprio ser humano, e aos que mesmo sem tê-lo conhecido, nos dão o privilégio em tê-los como clientes.

Como ele mesmo gostava de dizer: #Largatudo e #vemtimborapracá !

Musica ao vivo (voz e violão), a partir de 12h
Meu do dial: pratos individuais com preços especiais e nossas especialidades da Casa
SÁBADO 10/11
NO TERRA DO MEIO

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10 de novembro de 1939

10 de novembro de 1939

Meia-noite-e-meia
Meia-noite-e-meia
Meia-noite-e-meia
Meia-noite-e-meia

Seus olhos estão presentes, verdes e sem a pressão que tanto lhe estava incomodando, amando a sua maneira em visão que só o senhor enxergava mesmo quando turvas as curvas. Conseguindo encantar no olhar, na verdade, queria todos felizes. Às vezes conseguiu, outras, não tentou. Do seu jeito. Bastava o bom papo. Aquele conto. O causo não contado. O contado várias vezes, mas, sempre com a surpresa do espanto. São tantos.

A grama está verde
A Gilmara, aprendeu
A Graça, sorriu
A chuva, caiu
O camaleão, subiu
O Ipê, floresceu
A vida, seguiu

Não há mais nada que possa fazer. Há muito a se fazer. As perguntas, agora, nós as responderemos. Os ensinamentos são suficientes para irmos até o final. Vamos repassar a nossa maneira. É assim. Sempre que as coisas ficavam confusas, complicadas de entender, a dica era automática e mental: Aos livros!

O igarapé está tinindo
Os teus livros, abertos
Os teus tesouros, salvos
Os teus escritos, momentaneamente, perdidos
As caricaturas, penduradas

Mantemos tudo como antes. Mentira, já estamos mudando. Mostrou como se faz. Eras inquieto. Sempre uma novidade. Uma ideia. Um delírio. Um sonho. Realizações eram o de menos. Dizia: Se não for para se divertir, não tem graça. Já não há mais dor, cansaço nas pernas. Olhos doendo. Saudade dela. E, sei que topava.

A luta continua
Os malvados estão por aí
A volta do anzol os pegará
Os tanques não terão vez
A cavalaria não virá à praça
A marcha é firme
O povo é sem medo

Amores sem freios. Muitos filhos, filhas, sobrinhas e sobrinhos, netos e netas, alguns saídos das entranhas, outros, “postiços” como o senhor e mamãe repetiam. Sempre uma moral-da-história, um bom conselho, que dava de graça, como o Chico. Dizia: Uma vez me chamou de tio, já era!

A mamãe dorme
A Ângela é uma filha
As meninas cuidam
Os manos cuidam
Eu não consigo
Me desculpe

Seus amigos estão bem. Suas amigas, perguntam pelo senhor. Saudades grandes. Ainda bem. Ainda está vivo na memória. Nos livros. Na ponte de madeira. Na palhoça das barracas. No pé de açaí do Terra do Meio. Nas flores. A vermelha, a sua preferida, sei. Está espalhado. Virou, aos poucos, mais que meio, terra e água. E ar. E peixe. E coisas da vida. Caruana. Sem sufocar. Sem melancolias, pois, como sabe, “não somos dessas coisas”. Afinal, somos “ercrotos”.

O João Português está bem
Marivone, também
O Manoel Moleza está lá
O Maraca, às vezes buia por lá
O Iam, o Nambu, a corriola todos bem
As pivetes, ainda choram

As quartas estão vazias. Vadiava e ria. Cantava e lia. Era remédio. Todos se curavam. Cocoon cabloco.

O Bosco continua se superando
A Cristina é fortaleza
A Wania fotografando
O Plaça é parça
O Galvão, escrevendo
A Dulce resolveu não ir mais
O Sandro está colhendo
O tio Lemanski orando
O tio Haroldo é parceiro
A Fafá te mandou um cheiro

Obrigado pelas vivências. Somos todos uns sortudos. Tantos séculos. Tantas guerras. Tantas vidas e fomos nos encontrar justo agora. O que importa é a camaradagem. O puro conteúdo é consideração.

A Laís está cuidando do Terra
A Letícia está pintando o Terra
A Leila, criando o Terra
A Mariana, endeusando o Terra
A Alexia, dirigindo até o Terra
A Lia e Bia, crescendo na terra
Está tudo bem
Tudo certo
O Matheus, é um homem
O Nandinho, está feito
Vamos entrar nessa
Boas coisas
Acontecem com
Boas pessoas

É meu pai, enquanto isto, vamos ficando por aqui. A vida ainda é a melhor opção. Como dizia, “se tudo der errado, eu volto”. Não fica a dever nada. Vida intensa. Produtiva. Até o final. Quem me dera. Colocou o nível lá para cima. Vou me esforçar. Os manos, também. Cuidaremos da tua Estherzinha.

Teus olhos verdes
Teu riso largo
Tuas mãos
Teu cheiro
Teu abraço
Tuas teimosias
Tuas alegrias
Tuas sacadas

Para sempre, te amo, sempre.

Feliz Aniversário, pai e obrigado por tudo, mesmo!

Seu cachorrão

Papai

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O Anti-anti-sistema

Dois colegas, na parada do ônibus Pedreira-Lomas, no início de outubro:

-Cara, tu és mãe Diná?
-Não. Escorpião.
-Então como é que tu sabes que o Mito irá fazer o mesmo que os outros presidentes eleitos, colocando gente da política, de Partidos da base em Ministério?
-Escorpião.
-Cara, tu estás é com raiva porque teu Lula tá na cadeia.
-Sou Ciro. Escorpião.
-Bixo, que escorpião é este que ficas repetindo?
-A parábola do Escorpião. O Mito é deputado federal há quase três décadas. É da natureza, irresistível, dele, te enganar.
-Chegou o nosso ônibus…

https://oglobo.globo.com/brasil/bolsonaro-anuncia-primeira-ministra-deputada-do-dem-comandara-agricultura-23218447

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Novembro

Poesia e canalhasNovembro
As chuvas
As mangueiras
O vento
As mangas
E a certeza
Que nada pára
O tempo
Com exceção
Da saudade
Ah, esta
Pára até
A alma!
*10 de novembro, feliz aniversário, pai
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